“A História não se repete, mas rima” – Mark Twain

Atualizado: 13 de Abr de 2019

Autor: Tiago Tecelão


Artigo de opinião escrito no âmbito do tema do mês de dezembro: "Crescimento do Populismo e de partido de extrema-direita".


Vivemos tempos tumultuosos. Tempos que serão recordados e gravados nos livros de História para sempre. Os próximos anos não se avizinham nada fáceis, o cenário negro tende a agravar-se e a extrema direita é em si, uma causa e uma consequência. Causa de uma Guerra, e consequência do que foi feito para chegarmos a este ponto. Assim, concordo com o termo reacionário para descrever este tipo de movimentos populistas. São, realmente, uma reação.


Reação à crise política, financeira, social e económica que se vive. Automaticamente nos vem ao imaginário os anos 30 (fascismo e comunismo), quando se fala do crescimento do populismo e movimentos extremistas. Ora, talvez estejamos realmente a viver tempos muito semelhantes com o início dos anos 30 no Ocidente. Será pura coincidência, ou a História repete-se mesmo?


Analisemos então o início dos anos 30, comparando-os com o início deste século: duas gerações pautadas pelo individualismo e pela descrença nas instituições, viram o seu reinado de otimismo chegar a um ponto de rutura a partir do crash da bolsa de 1929 e com o crash financeiro de 2007. Se o individualismo era alto, estas pessoas não tinham a quem recorrer em tempos de pânico, um grupo onde se pudessem agarrar; e se as instituições enfraqueciam a cada dia que passava, também estas não poderiam prestar auxílio às “vítimas” do crash. Assim, a crise do crédito de 2007 agravou as condições de vida da população, levando a que a única fonte de apoio fosse a família, também ela enfraquecida em altura de mudança de valores – loucos anos 20 e os artísticos anos 90. Os filhos passam a ser protegidos pelos pais, que não desejam que estes cometam os seus erros do passado, e vivem aterrorizados com a ideia dos filhos caírem no mundo da droga, do individualismo e do risco. E assim, cresce uma geração de jovens protegidos, com um decréscimo gigantesco no abuso de drogas leves e pesadas, bem como no crime.


Assim, a crise e o desemprego assolaram o Ocidente tanto nos anos 30, como na contemporaneidade. E quando o desemprego não era uma preocupação, era o subemprego, especialmente entre os jovens: o que atualmente apelidamos de trabalho precário. Também uma guerra cambial e de transações comerciais a nível mundial se iniciou nos anos 30, e temos hoje Trump a rasgar contratos, a tornar a sua economia mais permeável a estímulos exteriores, e todas as outras potências a desejarem seguir o mesmo caminho. A Rússia a importar cada vez menos, com um Brexit prestes a ser consumado e com uma Europa com um discurso cada vez mais protecionista. Faz lembrar o crescente protecionismo que aconteceu após o crash de 1929, depois de largos anos de abertura radical de mercado se implementarem políticas que ficaram conhecidas como “Beggars Thy Neighbour”, hoje chamadas “Trade War”. Também a desigualdade nos anos 30 atingiu um pico histórico, tal como na contemporaneidade, que alcançou recentemente um valor maior que em 1930.

Todos estes fatores levaram à erosão da Liga das Nações e poderão levar ao fim da União Europeia, respetivamente. Atualmente, as certezas que tínhamos quanto à União Europeia e a esperança numa nova era democrática das nações, já não é tão certo, e já ninguém pode afirmar com certeza que a União Europeia sobreviverá a estes tempos de crise.

Podemos estar perto do que os autores Ian Bremmer e David Gordon apelidaram de “G-Zero World”, no qual entraríamos num mundo de “cada nação por si”, uma espécie de salve-se quem puder, no qual o protecionismo estaria implementado em todas as nações mundiais. Estes argumentam também que os votantes querem líderes que defendam os interesses nacionais, cada vez mais contra os interesses dos globalistas, e que votarão em líderes que sabem defendê-los. Este é o momento de recuo da globalização. É o momento de rutura com a antiga forma de fazer política, e no qual a população pede alguém com medidas suficientemente populistas e severas em quem possam colocar alguma confiança. Os autoritarismos parecem então voltar. A Guerra total torna-se uma possibilidade, visto que os últimos combatentes de uma guerra total saíram de cena e é muito mais fácil as gerações atuais cometerem os erros dos quais já não têm memória de ver os seus antepassados praticarem.


Por fim, é imperativo prestar atenção às capas das revistas do “The Economist” para 2017 e 2019. Em 2017, uma capa com cartas de Tarot fará as pessoas acreditar que estas foram escolhidas ao acaso. Porém, vamos à análise feita por João Branco Martins do Tarot presente nesta capa.


A Torre - O colapso do status quo com a eleição de Trump (sentado sobre os EUA na carta seguinte) e a ruína repentina também comparável a um gigantesco e violento acordar dos adormecidos.


O Julgamento - Olhos postos em Trump e em tudo o que ele fará, para o culpabilizar ou glorificar (dependendo do lado em que se está). Será o seu juízo que ditará o futuro, como visível nas cartas posteriores.


O Mundo - O Julgamento de Trump será o de ver o Mundo povoado de interesses e lobbies bem como de perigos vindos de livros ou seguidores de certos livros. O caminho tomado será o de levar o Mundo ao Ermita.


O Ermita - Os EUA vão-se focar nos problemas internos e nas suas fraquezas. O comércio e a globalização são deixados para segundo plano, ficando os EUA focados apenas em si e nos seus. É o fim do intervencionismo militar americano. É o caminho do Ermita.

A Morte - Morte de uns impérios, morte de pessoas, armas de morte. Sem um líder o mundo habitua-se à guerra e às bombas. Não existe agora um polícia do mundo pelo qual temer.


O Mago - Novos impérios e forças a dar os seus primeiros passos nisto de imperar. Criam-se as condições para prosperarem novos players mundiais. Curiosamente a deslocalização das fábricas para os consumidores finais dará um rude golpe nas industrias tradicionais, representando-se isso na impressora 3D que o Mago tem.


A Roda da Fortuna - Alternância total entre os velhos e os novos impérios. Num dia os EUA parecerão imbatíveis, no outro parecerão tão frágeis. Nada se define para nenhum dos lados.


A Estrela - Esta carta da Estrela tem um cometa no meio, símbolo associado à guerra. Esta guerra será ganha no espaço. Se na I Guerra Mundial o avião fez a diferença, nesta guerra o satélite fará o mesmo papel.

Agora a capa de 2019:

Poderia o “The Economist” ser mais explícito? Fundo preto? O funeral. Talvez europeu, talvez mundial. Vivemos numa sociedade de risco, Beck tinha razão. Risco iminente. Segurem-se bem caros passageiros!

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