Entrevista a Mamadou Ba

Considerando-o uma figura emblemática na luta contra o racismo, o Socialis entrou em contacto com Mamadou Ba para discutir as formas estruturais que revestem o racismo em Portugal, as desigualdades que promove e sedimenta, assim como as dificuldades e entraves do movimento anti-racismo num país com um passado colonialista extenso com influência nos sistemas mentais de legitimação da população portuguesa.





SOCIALIS: Nos seus longos anos como ativista e militante anti-racista em Portugal, quão difícil é confrontar um país que se afirma como sendo não racista?


Mamadou Ba: Obrigado, desde já, pela oportunidade. É sempre muito difícil confrontar um país quando o mesmo está em estado de negação. O grande problema nem sequer tem a ver com a existência ou não do racismo, o seu grau de expressão numa sociedade e as formas que essa exclusão assume na sociedade. Tem a ver com um longo património histórico de, na minha opinião, embuste, em que nós nos fechamos relativamente à questão racial. Tem a ver com o processo colonial, sobretudo, e a catarse que não foi feita até agora relativamente a este processo. No processo colonial, a raça acabou por assumir várias dimensões, entre elas a sua própria negação como ferramenta nas relações sociais, no reconhecimento da diversidade da sociedade ou da sua composição étnico racial e isso torna de facto muito mais complicado discutirmos e confrontarmos o país com o seu próprio espelho. O país não gosta de se olhar no espelho e acredito que tem razões para não o fazer porque se olhasse para o espelho, o que veria seria demasiado catastrófico para aquilo que é realmente o discurso público sobre igualdade, sobre diversidade, sobre multiculturalidade. Todos os grandes motes para nós termos uma democracia sã e saudável seriam postos em causa se a sociedade se olhasse a si própria. Eu acho que isso torna evidentemente mais complicado confrontar o país e a sociedade com a questão racial.


SOCIALIS: De que forma o racismo estrutura a sociedade portuguesa?


MB: Tal como eu disse na primeira pergunta, estrutura, pela sua própria fundação moderna, ou seja, nós podemos interrogar várias formas de Estado-nação. No caso português, se nós valorizarmos a questão do Estado-nação a partir do período colonial ou a seguir à aventura imperialista. E acho que a questão da escravatura, que tem uma dimensão importante, pela forma como o imaginário coletivo se habituou a uma ideia de estratificação humana de categorizar as pessoas em função, dá um certo valor. A valoração dual que se dá à diversidade étnica, em função da questão cromática, da questão cultural ou da importância geográfica, faz com que realmente a questão racial assuma uma dimensão estrutural. Depois o Estado Novo, perante a condenação da comunidade internacional, tentou reinventar o que chamou na altura uma nação pluricontinental, ou seja, sempre convocando a ideia de nação para camuflar a estratificação racista que existia a partir da aventura colonial e esclavagista. Desde então essa estrutura permanece, permaneceu e transmutou-se no discurso multiculturalista em que a ideia de nós, enquanto comunidade política, termos feito processos históricos que nos levaram à amenização, a evacuar a atenção racial, ou até quase a anulá-la, como se isso fosse verdade. Não foi, nunca foi e continua a não ser. Eu considero que o próprio processo de descolonização não se completou, na medida em que nós podemos ter descolonizado efetivamente, do ponto de vista político ou de doutrina internacional, os antigos países colonizados, mas não descolonizamos várias ferramentas da nossa sociedade. Não descolonizamos o imaginário, não descolonizamos as relações sociais que se reforçam na sociedade portuguesa e permaneceu, claramente, um sedimento racista na forma como nós atuamos como sociedade, como coletivo.


SOCIALIS: Que desigualdades promove o racismo entre a população portuguesa?


MB: Há várias. Há desigualdades estruturais e há depois algumas que lhe são conexas. As desigualdades estruturais podem-se ver na própria conceção do que é fazer parte ou não do tecido nacional. Nós podemos tomar alguns exemplos práticos para ilustrar isso. O caso da lei da nacionalidade: um jovem dito da segunda geração de imigrantes, sejam eles cabo-verdianos ou das antigas potências coloniais, que nasce em Portugal não é automaticamente português; ele só será português a partir da ligação com um estatuto jurídico do seu progenitor, ou seja, se o pai ou a mãe são portugueses ou se tem residência legal no país. Quando num coletivo, numa comunidade política, há pessoas que podem nascer no território e não serem portugueses, em função da sua ascendência ou da sua pertença étnico-racial, há uma estrutura funcional do Estado que legitima a questão da estratificação racial. Depois há as dimensões; há estudos na vossa própria faculdade do ISCTE-IUL que provam isso. Por exemplo, nós sabemos que 80% dos alunos dos PALOP são orientados para os cursos profissionalizados, e dos 20% que fazem outro trajeto apenas 3% podem chegar ao ensino superior. São desigualdades estruturais no acesso à educação que, por sua vez, têm implicação no acesso ao emprego qualificado. Há também desigualdades no acesso à habitação, portanto, há a segregação espacial, segregação na sociedade. Depois temos as outras segregações que estão conexas a isto que são, por exemplo: a participação política, a visibilidade política das minorias na esfera pública e na disputa pelo poder; elas estão absolutamente ausentes ou invisíveis na dimensão da partilha ou discórdia das escolhas e estratégias democráticas do país. Nós não temos representatividade dessa diversidade no parlamento nem em lado nenhum do espaço público. Portanto há essas formas estruturais para além das desigualdades económicas. Estudos do INE dizem que as comunidades racializadas são as mais fustigadas pela precariedade laboral, são aquelas que auferem rendimentos per capita dos mais baixos. Será então uma dificuldade de aceder a outro serviço, porque não tendo capacidade financeira para tal, terão formas desiguais de acesso a esses serviços.


SOCIALIS: Quais são os mecanismos de poderes que revestem o racismo em Portugal?


MB: Há os poderes fácticos, do Estado, e há os poderes institucionais. Se olharmos a relação dos poderes, ou da estrutura, onde há as funções centrais do Estado: a justiça, as forças de segurança e o sistema de previdência social, nomeadamente, a segurança social, que são 3 áreas chave nas funções importantes ou estruturais do Estado. Há uma relação, digamos já muito interiorizada de discriminação institucional perpetuada por essas instituições. Isso não quer dizer que alguém esteja sentado no seu gabinete a desenhar formas de discriminar A ou B. É porque a estrutura em si se foi construindo assim e consolidando-se assim, e isto enquista-se nas práticas administrativas e burocráticas. Se nós pegarmos em exemplos práticos até agora nos últimos 20 anos e, embora tivessem acontecido vários casos ou violência policial racista, não temos tido nenhuma condenação a pena efetiva de prisão de um agente da autoridade por prática de racismo. Não aconteceu. Houve condenações a pena suspensa, admoestação, multas, mas pena efetiva de prisão não aconteceu até agora. Isto é bastante revelador. Se olharmos para, por exemplo, o processo que foi um dos maiores processos de erradicação da discriminação habitacional, que é o PER, o Programa Especial de Realojamento, que tinha por função, na década de 1990, erradicar a precaridade habitacional de toda a população. As populações que foram e são mais fustigadas pela questão da habitação são as comunidades racializadas, e aquelas que ficaram absolutamente reféns da não conclusão desse processo são as comunidades racializadas. Os bairros ditos, os guetos da nossa sociedade, estão habitados por duas comunidades racializadas: os negros e os ciganos. Isto não quer dizer que não existam comunidades nacionais brancas que não estejam fustigadas pela questão habitacional, mas em termos do volume, proporção e dimensão, as comunidades racializadas são aquelas que são mais fustigadas pela questão habitacional, que é uma questão chave porque quem não tiver um teto, não tem condições de preparar nenhum outro tipo de inclusão na sociedade. Isto tem implicações no acesso à educação, no acesso à saúde e no acesso ao emprego. Se olharmos a própria organização urbanística, como se diz muitas vezes “fazer cidade”, nós percebemos que há algumas continuidades históricas que se refletem na forma como são fabricados ou construídos os guetos em que vivem essas comunidades racializadas. Portanto, há várias formas: nós já falamos no acesso ao emprego e que o poder simbólico e o poder real nas instituições impactam muito a forma como na sociedade as pessoas legitimam ou não as perceções raciais. Quando, por exemplo, nós vemos a abordagem das forças de segurança às questões de relações entre a autoridade pública ou de manutenção da ordem pública com comunidades racializadas e todo o discurso em torno da perigosidade dos bairros e a necessidade de haver outro tipo de intervenção nesses bairros. Como se nós tivéssemos necessidade de ter um estado de exceção jurídica nalguns espaços ou territórios do nosso país, para legitimar uma determinada forma de intervenção dessas forças e percebemos, de facto, que há aqui um mecanismo institucional a funcionar. A celeuma que foi [com o caso do bairro] da Jamaica, ou o caso de Alfragide, mas já tinha havido outros casos, são prova evidente disso. Há uma invisibilização crónica das comunidades racializadas em esferas de disputa de poder.


SOCIALIS: Você já referiu isto, mas eu volto a enfatizar e pergunto: Quais são os perigos de glorificar o período das descobertas portuguesas e do colonialismo no diálogo e confronto anti-racista.


MB: Há vários e isso vai ser, provavelmente, o maior desafio do ponto de vista do discurso e da narrativa da luta anti-racista. Há dois aspetos que me parecem essenciais nesta questão. Primeiro, para os saudosistas da empresa colonial, há uma tentação em encontrar uma grandeza na pequenez. É encontrar sempre uma espécie de escapatória para dizer que a aventura colonial foi um feito, uma […] histórica enorme, independentemente das tragédias e das suas consequências dramáticas e daquilo que isso representa como processos mentais e culturais de coisificação, desumanização de outros seres humanos e a continuidade que isso tem hoje na forma como nós olhamos para pessoas que são diferentes. Segundo há uma outra coisa que está diretamente ligada a isto, que é então esta recusa em fazer a catarse. Aliás, parece mesmo, e eu uso esse termo e irrita alguns historiadores, mas é o conceito que eu encontro melhor para o definir; eu acho que há uma obsessão pela absolvição histórica. Há uma camada da sociedade que está numa disputa ideológica sobre o que o que deve ser hoje o nosso imaginário coletivo e que acha que nós temos de recusar, a todo o custo, qualquer sentimento de culpabilidade. Ora, o debate não é esse, não se trata de evidenciar culpas porque as culpas estão estabelecidas. O que é preciso fazer, que eu acho que o movimento anti-racista tem o dever de fazer, é chamar à responsabilidade da sociedade atual. Como é que nós vamos fazer para evitar que maleitas que herdamos do passado colonial e da nossa história, se transformem em quistos que possam transformar e tornar-se bloqueios para a afirmação de uma democracia em que a diversidade étnica não é considerada como um problema, mas apenas como uma realidade ou, se quiserem, até uma mais valia. Pode ser encarada assim, mas quem não quiser dar esse passo pode apenas considerar isso como sendo um dado objetivo da nossa sociedade e com o qual terá de conviver: tal como há altos e magros, há também pretos e brancos. Se seguida, há outra coisa que é o facto de isso ter impactos sobre a forma como nós depois produzimos saberes e conhecimento para interpretar a nossa vivência quotidiana e em coletivo. Como é que nós, por exemplo, temos conteúdos curriculares que continuam a ser absolutamente colonialistas - alguns bastante racistas, machistas, xenófobos e tudo mais - e depois como é que isso ajuda na disputa para uma sociedade anti-racista. Isso torna-se realmente numa barreira, porque como nós continuamos sempre a dispensar esse tipo de matéria na formação dos jovens de hoje, que são os adultos de amanhã, portanto, os cidadãos que vão organizar a sociedade, o que tem impactos muito graves e dificulta bastante. Eu acho que a disputa pela memória e o lugar da história no dispositivo do debate atual são centrais para nós fazermos o combate anti-racista. Evidentemente que é preciso dizer sempre que eu acho que o debate é muitas vezes falseado porque quem não quer discutir encontra sempre uma forma de dizer: “Ah! Vocês querem discutir o passado? Querem julgar a história.”. Não, não. Não se trata de julgar a história. É preciso fazer partir da história e evitar que os seus efeitos permaneçam no tempo atual.


SOCIALIS: E isso vai de encontro à próxima questão. De que forma considera que o racismo é suavizado ou até mesmo dissimulado? E quais serão os perigos de revestir o movimento anti-racista como algo “politicamente correto”?


MB: Sim, podemos dividir isso porque há aqui um grande debate. Pelo aquilo que eu tenho observado nos últimos vinte anos, até há pouco tempo, ao caso de Alfragide, nós poderíamos ter duas formas de expressão do racismo. Uma forma difusa, que estava presente no próprio caldo cultural, no discurso público, na interação cultural e social; e um racismo ideológico, protagonizado por forças noturnas, que são forças de extrema-direita e algumas forças reacionárias, que utilizavam questões que podem ter ligações com a questão racial, mas não são tão ontológicas como as questões migratórias, para ter um discurso absolutamente xenófobo e racista sobre a questão do Estado-nação, da capacidade ou não de determinadas camadas da sociedade integrarem o modelo republicano ou não, ou serem mais capazes de incorporar a ética republicana. Havia este discurso, havia essas duas formas de balancear e discutir o racismo. Eu acho que a partir do caso de Alfragide, a coisa mudou radicalmente, e por duas razões. A primeira, porque tudo aquilo que o movimento tinha andado a dizer e que foi sempre um bocado, digamos, desmerecido do ponto de vista da gravidade do que representava a penetração do racismo nas instituições e a sua difusão na sociedade, acabou por vir ao de cima e o posicionamento que aconteceu entretanto, tanto do lado de quem dizia “Estão a ver que é verdade que o racismo realmente é uma coisa que existe.”, como do lado de quem estava em negação e que depois veio em defesa, do que tinha acontecido ali, nomeadamente da instituição da polícia, mostrou que o racismo hoje já não pode ser tão subtil e camuflado. O segundo episódio, que rebenta com toda a tentativa de branquear ou camuflar o racismo, foi realmente os acontecimentos da Jamaica. Nesses acontecimentos, nós tivemos uma torrente de racismo, não apenas nas redes sociais e nas caixas de comentários dos jornais, mas na própria opinião pública e tivemos todo o espectro político da nossa sociedade, do mais alto magistrado da nação até ao mais humilde cidadão, a discursar nos cafés e nos sítios próprios a questão racial. O problema aqui é, na minha opinião, saber se esta discussão nos leva a algum lado para além do facto do racismo irromper agora de uma forma mais aberta no espaço público e saber como é que esse debate pode ser uma oportunidade para nós, não só fazermos o que tinha faltado até agora: reconhecer a sua existência. Reconhecendo que o racismo existe, o que é que se faz para o combater? Eu temo que pelos vários posicionamentos que têm acontecido e com uma estratégia de maçã podre que tem surgido nos discursos públicos de pessoas com mais responsabilidade para o efeito, é que perdemos uma oportunidade para encarar isso de frente. Porque é que eu digo isto? Muita gente veio dizer com o debate que se levantou com a questão do bairro da Jamaica: “Não vamos generalizar! Isto são coisas completamente isoladas e que estão bem identificadas.” Que é a estratégia da maçã podre, ou seja, basta tirar a maçã podre e está tudo bem. Ora, isto parece-me uma estratégia muito errada porque ela foi ensaiada noutros países e os resultados foram desastrosos. Em França, na década de 80, o Mitterrand chegou ao poder, ele fez um rento higiénico a todos os partidos políticos, dizendo: “O que é preciso fazer é um cordão sanitário contra a extrema direita.”. Isto era o início do balbuciar da Frente Nacional em França e a estratégia que ele recomendava na altura era não se falar da Frente Nacional e eu acho que essa estratégia é muito má. Foi má em todos os países em que se tentou fazer isto, Itália, ou um outro exemplo, Espanha com o Vox; sempre que no discurso público se ensaia a estratégia da maçã podre: “Vamos isolá-los, não vamos falar deles. Porque a maioria da sociedade nem é racista.”, dá um péssimo resultado. Porquê? Porque isto está impregnado na nossa cultura, nós ainda não fizemos a catarse colonial. É preciso fazê-la e isso não se faz por decreto nem ao assobiar para o lado. E depois há outras circunstâncias: quando há crises económicas em que há uma ameaça de colapso do regime como o conhecemos, sobretudo o Estado-Providência, se um charlatão aparecer e for esperto, que é está a acontecer em vários sítios, coloca as vítimas do sistema em conflito entre si. Os deserdados da nação podem automaticamente encontrar um bode expiatório para os seus próprios problemas e eu acho que esta camuflagem ou esta estratégia de debate não serve à causa anti-racista e parece-me que os dirigentes políticos quase todos ainda não perceberam isto. Eu não poupo ninguém. Acho que não perceberam mesmo porque não é por acaso que temos Andrés Venturas, não é por acaso que nós temos o PURP. O PURP devia ser analisado; parecem epifenómenos. Quem é o PURP? É o Partido Unido dos Reformados e Pensionistas, que é um partido que, supostamente, está a lutar para defender os direitos dos reformados, mas é um partido que em dois anos exalta uma retórica muito xenófoba. Eu vejo todos os debates de televisão por obrigações de ofício, tenho de os ver todos para poder perceber as tendências, e ainda no outro dia o candidato que é líder do PURP dizia: “Não, eu não sou como o PNR, atenção. Nem como o André Ventura, mas há uma coisa que eu tenho de dizer aqui e vou dizê-lo alto e em bom som. Antes de cuidar daqueles que vêm, que nos invadem, temos de cuidar de nós, do que é nosso.”. E esse senhor não é, e eu sei que ele não é, um racista empedernido. Isto é a forma como as pessoas incorporam facilmente discursos fáceis porque estão expostos ao sentimento de ameaça. Há qualquer coisa que lhes parece ser uma grande ameaça e nós temos muita gente que instrumentaliza o discurso da ameaça. Se vocês repararem, a Marine Le Pen tem um discurso que é altamente inteligente do ponto de vista político. O pai dela era anti jacobino, e dizia nos seus comícios: “O grande problema da república são os jacobinos, porque eles são controlados pelos maçons.”. E ela quando chega diz: “Não, o nosso problema aqui é precisamente nós termos de defender a República contra o Islão porque este representa um grande perigo para a República.”. Ou seja, de um antirrepublicanismo acirrado, eles passam quase a um positivismo republicano contra a afirmação de identidade cultural de outras minorias. E esta alteração do discurso penetra muito facilmente no pensamento, e eu acho que pessoas como o André Ventura têm hipóteses de singrar por causa deste tipo de fenómenos, em que as redes sociais e as fake news têm um papel importante. Depois a demissão dos partidos tradicionais vem vincar valores, independentemente da tensão do debate naquele momento, mas vincar valores mais republicanos: na República, esses são os valores e deles não abdicamos. E enquanto se continuar a fazer, como me parece que está a acontecer muitas vezes nalguns países da Europa, que é tentar recuperar e higienizar o discurso de extrema direita, sobre questões migratórias, de segurança, de diversidade, o que nós estamos a fazer são duas coisas. Primeiro, nós legitimamos esse discurso do ponto de vista sociológico. [Inaudível devido a problemas com a gravação]. No debate passado, o candidato do PNR, que é um inepto intelectual, um atrasado mental, ele não conseguia dizer nada que se possa entender, mas ele disse uma coisa interessante, e acho que é na linha de todos que estão nesse momento na facho-esfera: “Vocês têm medo de nós. Nós vamos ganhar porque nós já percebemos que o povo está connosco.”. Esse é um discurso que parece meio pateta, mas não é. É assim que estes sujeitos vão ganhando espaço e é por isso que eu sou adepto, e muita gente me critica por causa disso, mas eu não deixo passar uma única declaração racista de ninguém, porque eu acho que, primeiro, é preciso sempre dar a conhecer que eles existem, no sítio que eles existem, depois confrontá-los.


SOCIALIS: E isso já segue um pouco à frente, acabou por responder a parte de algumas. Quais são para si as formas mais prementes de combater o racismo? E se, de facto, será possível combater o racismo estrutural sem descolonizar as mentes.


MB: Não será, não, não será possível. Eu costumo dizer que nós fizemos o 25 de abril e seguimos os 3 D’s: Descolonizar, Desenvolver e Democratizar. Nós não conseguimos ainda cumprir completamente nenhum dos D’s. Não descolonizamos porque a descolonização não pode ser um dispositivo unilateral, ou seja, ela tem de ser bilateral. É preciso reescrever e reinterpretar o processo de descolonização e reinterpretá-lo à luz da realidade atual; olhar para a nossa composição étnico-racial e refleti-la na forma como nós queremos cultivar o processo de descolonização. Que é uma coisa que não é fácil de fazer, mas é fazível. Isso passa por várias formas: pela reforma do sistema de ensino, pela refundação do regime político do ponto de vista da sua capacidade de absorver a diversidade étnico-racial e a capacidade de representatividade dessa mesma diversidade étnico-racial, reformular as próprias políticas públicas no acesso a esses espaços; eu sou adepto de que tem de haver mecanismos de abertura à ação associativa em vários campos para nós conseguirmos combater a desigualdade que fustiga essas comunidades que tem a ver com uma dívida histórica. É preciso também, provavelmente, uma outra fórmula de política do movimento social. É preciso reinventar a movimentação social. Ela não pode ser feita tal e qual como tem sido feita até agora. Isto é uma autocrítica também ao próprio SOS Racismo, que eu assumo. Nós temos de encontrar formas de dar espaço aos novos sujeitos políticos racializados. Isso não quer dizer cultivar comunitarismo, como se diz, ou cultivar idealitarismos vários. Temos de fazer porque eu acho que a extrema-direita está a ganhar essa batalha, esse é que é o perigo. A extrema-direita usa muito o idealitarismo para separar e para dividir. O que o movimento anti-racista e as forças progressistas têm de fazer é usar a identidade para somar, para acrescentar. Tem de ser essa a diferença e isso é uma estratégia, não pode ser só um wishful feeling, terá mesmo de haver cedências e para isso é preciso interrogar alguns dispositivos que existem e que irritam no debate porque as pessoas ainda estão muito fechadas a determinadas formas de olhar para isto. Quando nós falamos de privilégio branco, as pessoas dizem: “Mas o que é isto? Privilégio branco é uma coisa... Vocês já querem separar.” E é o que eu digo sempre, privilégio branco não é identidade. Branquitude, como foi a negritude, não são identidades, são processos históricos de acumulação de privilégios que tem a ver com condições históricas que é preciso rever. Nós vamos ter de partilhar o mundo. O filósofo camaronês Achille Mbembe tem uma expressão muito feliz que diz: “Ninguém vai combater o racismo se não estiver disposto a estar exposto ao outro”. Tem de haver mesmo essa capacidade de exposição ao outro. A exposição ao outro é aceitá-lo tal e qual como ele é sem abdicarmos daquilo que nós somos. É por aí que nós vamos ter de caminhar.


SOCIALIS: Comparando Portugal com os outros países europeus, qual a sua opinião?


MB: Eu no Prós e Contras disse uma coisa [“Recuso-me a fazer uma competição de burrice”] e ficou ali como os memes [risos] e eu não vou dizer-te isso a ti porque não é essa a intenção que tens, mas eu acho que essa comparação não faz muito sentido do ponto de vista daquilo que são os princípios práticos. Agora, do ponto de vista mais objetivo há algumas comparações que podemos fazer. Portugal é diferente dos outros países na questão racial por dois motivos, na minha opinião: primeiro no ponto de vista histórico que tem a ver um bocado com o seu próprio processo de descolonização. É muito mais recente, portanto a catarse é muito mais longa ainda e a necessidade é ainda mais imperiosa e a democracia é muito mais juvenil. Depois, tem, felizmente – digamos assim - uma vantagem geográfica, a exposição daquilo que é chamada a crise de refugiados, que não é; porque é uma crise de resposta política que existe, não é uma crise de refugiados. Há uma crise política, há uma incapacidade da Europa em responder, não há uma crise de refugiados, porque a Europa recebe 6% ou 7% das pessoas deslocadas do mundo. Portanto, não há nenhuma invasão na Europa, o país do mundo que recebe mais pessoas deslocadas é o Bangladesh. Mas Portugal, não estando diretamente no foco dessa exposição, é um bocado poupado a este discurso xenófobo e ambiente que existe no resto Europa, isto é uma mais valia que tem de ser aproveitada pelo movimento e pelos decisores políticos. Portugal tem uma semelhança estrutural com os outros países todos, que é a questão da sua herança colonial e temos de ver o que realmente atiçou a raiva racista e percebemos que esse é o traço principal que tem de ser combatido. Houve dois momentos que atiçaram. Até nós vimos pessoas, habitualmente afáveis, amáveis e até corretas do ponto de vista da retórica, do discurso público a virem a trair. Quando se fez a iniciativa em torno da estátua do padre António Vieira, caiu o Carmo e a Trindade. Pessoas, insuspeitas de serem racistas, mas que estão presas ao dogma do sensacionalismo lusitano relativamente àquilo que são as questões raciais vieram, a trair ao dizer: “Alto, vocês já estão a ultrapassar a linha vermelha. Vocês não podem julgar uma das figuras magnas do humanismo lusitano.”, que é o padre António Vieira. E quando chegamos a esse tipo de clique, percebemos a força da sedimentação racista no imaginário coletivo. Inconsciente, muitas vezes e por outras vezes, ideologicamente orquestrada. E a partir daí surgiram, renasceram… isto é muito interessante, este fenómeno. Eu acho que os sociólogos deviam estudar isso. Se repararem, a partir daí, voltaram a renascer todos os pequenos satélites de extrema-direita que estavam completamente em hibernação. Causa identitária, causa nacional, escudo identitário, portugueses primeiro, todos esses pequenos grupos renasceram logo, e reconfiguraram-se na causa identitária e tiveram os generais académicos que vieram logo à liça: Nogueira Pinto, Rui Ramos, historiadores, ou outros pesos pesados da academia que vieram logo ao terreno plantar a bandeira, como João Pedro Marques, por exemplo, que faz proselitismo histórico ao arrepio a tudo o que são regras da boa consciência académica, vieram todos à liça dizer: “Não, nós estamos aqui e daqui não saímos.” e confrontaram o espetro político higiénico com isto: “De que lado é que vocês estão? Estão com aqueles que querem apoucar a nossa herança histórica ou estão connosco?”. E considero que o debate sobre se Portugal é mais ou menos racista também tem de se calibrar a partir daí e depois ver um bocado como, sobretudo, o país reage sempre que há, por exemplo, uma acusação. Quando saem relatórios internacionais, e têm saído vários, a acusar o Estado, não as pessoas, mas o Estado, de práticas discriminatórias, há muito gente que fica logo muito incomodada e vêm logo evocar rankings internacionais: “Nós somos os primeiros ou segundos em relação a outros países que acolhem.”. Entretanto, há estudos que desmontam isso tudo, por exemplo o European Social Survey diz claramente que a perceção de que há em Portugal quase 50% das pessoas continuam a achar que as pessoas podem ser inferiores em função da sua cor da pele ou pela sua pertença étnico-racial ou cultural e são dados recentes que nos colocam ao lado da Hungria entre outros. Depois há outros indicadores que dão o contrário. É por isso que eu digo que parece-me muito mais importante olhar-se para especificidades, aquelas que eu identifiquei, e tentar tirar delas alguns proveitos e naquelas em que nós temos parecenças com o resto da Europa, nomeadamente, no que diz respeito à nossa herança colonial e à nossa herança histórica, para tentar focarmo-nos melhor no combate por aí.



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