Entrevista com a Professora Doutora Maria de Lurdes Rodrigues, Reitora do ISCTE-IUL

Data: 24-01-2019



SOCIALIS: O debate sobre as propinas tem-se intensificado ao longo destes últimos meses, com várias personalidades a tomarem posição na esfera pública. Qual é a sua opinião em relação a este assunto?


Maria de Lurdes Rodrigues (MLR): Bom, como sabem certamente, o debate tem tido um ritmo um bocadinho desigual, não é? No início deste Governo, em 2015, foi congelado o teto máximo da propina e nos últimos meses o Governo tomou a decisão de baixar em 20% este teto máximo a aplicar já para o próximo ano e nos cursos de licenciatura. Isso acabou por abrir uma reflexão sobre o próprio modelo de financiamento das instituições de ensino superior. O atual modelo tem duas componentes.


Uma é a componente do financiamento público: depois de identificada a dotação máxima de financiamento das instituições de ensino superior, é aplicada uma fórmula para determinar a distribuição entre as várias universidades e instituições de ensino superior; uma fórmula que tem em conta a qualificação do corpo docente e o número de alunos, mas desde a crise, eu acho que até há mais de dez anos, que essa fórmula não é aplicada e, portanto, quando baixam ou quando aumentam, as dotações são distribuídas proporcionalmente em função de um histórico.


O congelamento da aplicação da fórmula levou a que o financiamento se tornasse independente dos esforços de inovação, ou de qualificação ou até de aumento de alunos das próprias universidades. Uma universidade como o ISCTE-IUL pode aumentar o seu número de alunos, mas como não há aplicação da fórmula, como a dotação é estabelecida com base no histórico, recebe o mesmo valor independentemente de ter mais ou menos alunos, de ter professores mais qualificados ou menos qualificados, ou de ter projetos de inovação. E este congelamento dos critérios para a definição de quanto é que o Estado atribui a cada uma das universidades coloca um problema; o congelamento é em si um problema.


A outra dimensão resulta das regras que estão estabelecidas para a atualização ou para a definição dos tetos máximos do valor das propinas, são as chamadas receitas próprias. É um esforço das famílias, o contributo das famílias e dos estudantes para o financiamento. E, portanto, há dez anos que estava congelada a dinâmica relativa ao financiamento público, mas as dinâmicas das propinas não estavam e, portanto, as universidades iam mais ou menos compensando a diminuição do financiamento público com a exploração das regras associadas à dinâmica das propinas.


O que desencadeou esta reflexão agora mais acesa sobre as propinas foi o facto de estarmos, pela primeira vez em muitos anos, perante uma perplexidade e uma não clarificação do que é que vai ser o futuro, o que é que vai ser com o financiamento público: vai haver aplicação da fórmula ou não, vai haver uma outra fórmula, vai ser sempre com base no histórico, como é que isso se faz, quais são os estímulos e os incentivos? É melhorar a qualidade, qualificar o corpo docente, atrair mais alunos, ou até ter projetos de inovação… o que é que se vai passar? E o que é que se vai passar com as propinas? Diminuíram-se agora os tetos máximos em 20% e a prazo vão-se eliminar as propinas, por exemplo, no primeiro ciclo, não vão? Como é que essa diminuição do financiamento das universidades é compensada? É com financiamento público, não é com financiamento público? O que é que vai acontecer? Daqui por dois anos vamos outra vez aumentar o teto máximo, ou não vamos aumentar o teto máximo nunca mais? O que é que vai acontecer? Portanto, as regras foram alteradas e postas em causa, mas as instituições de ensino superior necessitam de uma previsibilidade no seu financiamento e funcionamento que não pode estar sujeita a estas indefinições, compreendem?


As características das instituições de ensino superior exigem uma estabilidade do modelo de financiamento, uma previsibilidade que tem que ver com a própria natureza do trabalho que fazemos

Porque nós, quando um aluno aqui entra, entra e fica três anos ou cinco anos. E, portanto, os recursos que as universidades organizam para ensinar um aluno têm este tempo de execução. Nós não podemos mandar os alunos embora se não houver financiamento. Não, os alunos têm de ficar cá, o serviço tem de ser prestado com qualidade, não é? Não é como num hospital ou outras instituições em que os utentes, os beneficiários, entram e saem no mesmo momento, ou que se pode adaptar o serviço; aqui não há nenhuma possibilidade de adaptação, sabemos que temos de assegurar o ensino de licenciatura em Sociologia a esses alunos que entraram, durante três anos e mais, se eles se vierem a inscrever em mestrados e por aí fora. As características das instituições de ensino superior exigem uma estabilidade do modelo de financiamento, uma previsibilidade que tem que ver com a própria natureza do trabalho que fazemos.


A um aluno que se inscreve no primeiro ano, no ano a seguir não podemos dizer: "Olha, agora já não aceitamos a inscrição porque não há financiamento". Isso não pode acontecer, não é? Não podemos aceitar essa situação. E, portanto, as universidades necessitam de ter a garantia que podem com confiança admitir cem alunos, duzentos alunos, trezentos alunos e saberem que se organizam com mais ou menos recursos, mas que se vão organizar para que o serviço de ensino seja prestado com qualidade. E é este o momento em que estamos, não é? Por um lado, há uma grande perplexidade das universidades que esperam e acreditam que isto se vai esclarecer e o debate público é muito importante porque estão em causa escolhas.


Queremos ou não, necessitamos ou não, de ter patamares de qualificação iguais aos outros países da Europa? E a resposta é sim.

E vocês têm ouvido no debate, há pessoas que defendem que não se devia mexer nas propinas e que se devia alargar a ação social. A forma como eu me coloco neste debate é tentar perceber se as propinas são, ou não, um obstáculo ao alargamento do acesso ao ensino superior, porque o que nós podemos verificar nos últimos anos é que houve uma espécie de estagnação do acesso ao ensino superior. Atingimos um determinado patamar: são mais ou menos 40% dos alunos em idade de estar no ensino superior que acedem; há 60% que não acedem, e a questão é, nos outros países é a situação inversa, esta percentagem é da ordem dos 60%. E em Portugal nós podemos colocar várias questões, a primeira é: queremos ou não, necessitamos ou não, de ter patamares de qualificação iguais aos outros países da Europa? E a resposta é sim.


Nós queremos ser como os outros países da Europa, queremos ter uma maioria de população jovem e adulta qualificada com nível de ensino superior. Então, se esse é um objetivo, nós necessitamos de refletir porque é que nos últimos anos progredimos tão pouco. Porque já sabemos hoje que, em 2020, quando terminar o prazo estabelecido na União Europeia para atingir determinados níveis de qualificação, não vamos atingir esses níveis. Então a reflexão a fazer é: porquê? Quais são os obstáculos? O que é que o nosso sistema tem de diferente dos outros países que nos impede de atingir esses objetivos? E as explicações podem ser muitas e provavelmente são muitas, não há uma única explicação.


No caso da maior parte dos jovens, as atuais gerações são as primeiras a chegar ao ensino superior. Significa que não têm um background e que é mais difícil para Portugal atingir esses níveis porque, justamente, as primeiras gerações estão agora a chegar ao ensino superior, ao contrário de outros países, em que a maioria dos jovens no ensino superior já são filhos de licenciados. Temos esse peso da própria trajetória das qualificações e pode haver muitos outros obstáculos. Não devemos, na minha opinião, deixar de refletir sobre as propinas.


E, portanto, como eu tenho a convicção de que as propinas são de facto um obstáculo a esse alargamento, são um obstáculo, entre outros

Se tivermos em conta o facto de Portugal ser um país desigual, o facto de os salários médios serem relativamente baixos, não podemos deixar de refletir sobre as propinas. Elas são ou não um obstáculo a este alargamento? E essa reflexão e essa análise têm de ser feitas e, se as propinas são de facto um obstáculo ao alargamento, se elas constituem um obstáculo a que mais alunos possam frequentar [o ensino superior], então devemos ponderar a sua remoção, ou não, e em que condições as propinas podem, ou não, ser removidas. E, portanto, como eu tenho a convicção de que as propinas são de facto um obstáculo a esse alargamento, são um obstáculo, entre outros: o alojamento também é [um obstáculo], as dificuldades de alojamento e o facto de haver muitos estudantes em mobilidade, deslocados.


Embora a situação do mercado de arrendamento e de alojamento em Lisboa e Porto seja mais grave, também há muito menos alunos deslocados do que em universidades como Aveiro. Aveiro não sustenta uma universidade, os alunos vêm de todas as regiões, portanto há universidades em que o alojamento é ainda uma variável mais pesada do que a das propinas. Portanto, há várias situações e depois há uma característica do nosso sistema que também me provoca alguma perplexidade que é a dependência das famílias, a dependência dos estudantes das suas famílias.


O que essa dependência significa, se essa relação se mantém, o percurso e o trajeto e as oportunidades que são dadas aos jovens estão dependentes do estatuto da sua família. Ou seja, se a família dos estudantes é uma família com recursos económicos, financeiros, e etc., esse estudante tem oportunidades que os estudantes cujas famílias não têm essa possibilidade não têm. Portanto, toda a ação social dependente do estatuto da família dos estudantes não permite, de facto, trabalhar no sentido de uma maior autonomização. Um estudante do ensino superior com vinte anos, com dezanove anos, com dezoito anos é maior; mas, na realidade, não é maior porque está muito dependente.


E o modo de funcionamento do nosso sistema não permite trabalhar no sentido de uma maior autonomia, uma menor dependência dos estudantes em relação às suas famílias. Isso é também um bloqueio ao acesso, na minha opinião, não é? É um bloqueio à igualdade de oportunidades. E, portanto, são todas estas coisas que era necessário pensar e as propinas não podem ser desenquadradas daquilo que é a visão que temos do problema e a visão que temos do que podem ser soluções e eu gostava muito, uma vez que o debate ganhou uma nova alma aqui no ISCTE-IUL com a convenção que organizámos [no dia 7 de janeiro], eu gostava muito que o debate fosse um debate qualificado, aprofundado, para podermos decidir com muita informação e com muita negociação, com muito pluralismo. Devemos estar atentos às várias visões e opiniões, para que possamos decidir com a segurança de que aquilo que estamos a decidir é uma solução duradoura, estável e que permite responder aos vários problemas: aos dos jovens, aos das universidades, por aí fora. Alonguei-me imenso [risos].


SOCIALIS: A redução ou a eliminação das propinas são medidas viáveis do ponto de vista financeiro? Por exemplo, se não houvesse propinas, que impacto isso teria na sustentabilidade e na qualidade de ensino do ISCTE-IUL?


MLR: Bom, no caso do ISCTE-IUL, como das outras universidades, se se abolirem as propinas é necessário substituir esse financiamento, não é? É necessário substituir por financiamento público, não vejo outra maneira de substituir esse financiamento. Quando se fazem contas globais isso é possível, não estamos a falar da duplicação do esforço público. Atualmente as dotações são de mil e duzentos milhões. Vocês têm de ter noção do que é que isto significa: para a educação são seis mil milhões, para a saúde são oito mil milhões, para a ação social, eu neste momento não tenho presente os números, mas é qualquer coisa como dois mil e trezentos milhões para as creches, os lares, os jardins de infância, são números assim. Portanto, vocês estão a ver que a parcela maior, o esforço maior que o Estado faz na prestação de serviços públicos não está no ensino superior, não é? E, portanto, a isto acrescem cerca de trezentos ou trezentos e trinta milhões de euros que é o valor das propinas, não é? E, portanto, se se abolissem as propinas no primeiro ciclo, significaria que o esforço que o Estado tinha de fazer era mais ou menos desta ordem de grandeza: era passar de mil e duzentos milhões para mil e quinhentos milhões.


Isto é uma questão de escolha. Imagino que não seja possível de um orçamento para o outro fazer isto, mas vocês ouvem muitas vezes o debate: quanto é que custa promover os enfermeiros, quanto é que custa fazer obras nos hospitais, quanto é que custa... Esse é um debate que está na rua, mas muitas vezes não se tem a noção das ordens de grandeza e as ordens de grandeza são muito importantes. Portanto não é um esforço impossível o Estado fazer, não estamos a falar de valores absurdos, não é? São estes os valores de que estamos a falar e, portanto, isto são escolhas políticas.


Tem que haver um pacto. Tem que haver um pacto, um compromisso do lado do governo, dos partidos políticos, de que o financiamento se mantém estável em função do número de alunos e da projeção de crescimento dos alunos para dar resposta a esta questão.

São opções políticas, significa retirar de um ou outro, os recursos são finitos, não são infinitos e, portanto, cabe aos governos decidir onde é que querem investir. E, portanto, na minha opinião, este investimento precisava de ser feito com a ponderação de todas as dificuldades. O que não pode depois é também o serviço público de educação superior ficar vulnerável às oscilações orçamentais, os governos não podem a seguir dizer: "Ah! Mas agora já não pagamos mil e quinhentos milhões, vamos pagar só... devemos diminuir aqui no investimento das universidades." Isso é com prejuízo para os estudantes, não é? E, portanto, isso não pode ser. Tem que haver um pacto. Tem que haver um pacto, um compromisso do lado do governo, dos partidos políticos, de que o financiamento se mantém estável em função do número de alunos e da projeção de crescimento dos alunos para dar resposta a esta questão.


SOCIALIS: Na sua opinião, as universidades devem ou podem apostar mais nas medidas de ação social?


MLR: Depende das universidades. Há universidades que geram receitas próprias e outras que vivem com mais dificuldade. A desigualdade não afeta só os cidadãos, afeta também as instituições. Há umas instituições com mais recursos do que outros. Quando comparamos o ISCTE-IUL com a Universidade de Lisboa, por exemplo, a Universidade de Lisboa tem cinco vezes mais alunos do que o ISCTE-IUL. Nós temos mais ou menos dez mil alunos e a Universidade de Lisboa tem mais ou menos cinquenta mil alunos. Todavia, o financiamento público para a Universidade de Lisboa é dez vezes mais do que o financiamento público para o ISCTE-IUL, dez vezes mais! O ISCTE-IUL recebe mais ou menos vinte milhões de euros de financiamento público e a Universidade de Lisboa recebe duzentos milhões de euros. E, portanto, a capitação por aluno dá uma grande diferença. Apesar de tudo, as universidades de Lisboa como o ISCTE-IUL, a Universidade de Lisboa e a Nova têm uma situação privilegiada: estão no centro, estão na capital do país e não têm nenhum problema de procura.


O ISCTE-IUL preenche todas as vagas, não temos dificuldade de atração de alunos, mas há universidades que têm essa dificuldade, como a Madeira em que a população local não sustenta e não viabiliza a existência de uma universidade, contudo, por razões políticas e razões de coesão territorial, é muito importante manter essas instituições de ensino superior. Por razões até de qualificação do território é muito importante. Assim, estas universidades enfrentam dificuldades que outras não enfrentam, o que é também uma dimensão de desigualdades. As universidades não são todas iguais, têm recursos muito diferentes e, portanto, as possibilidades de se comprometerem com programas de ação social também dependem dos recursos que são gerados e depois das escolhas que são feitas. E, portanto, o ISCTE-IUL tem uma situação sui generis: é uma instituição muito equilibrada do ponto de vista financeiro, mas o facto de sermos menos financiados com dinheiros públicos coloca-nos numa situação de grande dependência das propinas, por um lado, e, por outro lado, com condições de trabalho para os nossos docentes que são condições piores do que em outras universidades.


Nós temos um número de alunos por docente, por exemplo, que é o número mais elevado de toda a academia; o ISCTE-IUL tem mais alunos por docente do que as outras universidades. O ISCTE-IUL tem uma baixa taxa de professores catedráticos e associados, justamente, porque professores associados e professores catedráticos têm ordenados maiores, isso implica mais despesa, e tem havido uma gestão muito restritiva desses recursos. Portanto, os professores não só têm mais alunos, como trabalham mais horas, como têm tido menos oportunidades de progressão na carreira; e o equilíbrio financeiro do ISCTE-IUL tem sido feito com estas condições. Por outro lado, temos um enorme dinamismo, somos a melhor universidade ao nível dos mestrados e, portanto, há uma maior possibilidade de aumentar as propinas de mestrados e assim temos, de facto, tido uma situação em que os mestrados pagam as licenciaturas, pagam o défice de financiamento público nas licenciaturas e nos outros ciclos de ensino. E, portanto, tem havido uma gestão. Isso faz com que sejamos muito bons ao nível das ofertas formativas de segundo ciclo, ao nível dos cursos de mestrado, o ISCTE-IUL é a melhor universidade, mas com estas dificuldades de que vos dou conta.


Não podemos colocar a existência ou não da ação social na dependência dos recursos das universidades, porque as universidades têm recursos muito diferenciados

Portanto, a ação social devia de facto ser uma prioridade… As políticas de ação social têm de ser nacionais, porque isso é que é a garantia de universalidade [do acesso ao ensino superior]. Não podemos colocar a existência ou não da ação social na dependência dos recursos das universidades, porque as universidades têm recursos muito diferenciados . Se a ação social dependesse dos recursos do ISCTE-IUL, os alunos do ISCTE-IUL teriam menos ação social do que os alunos da Universidade de Lisboa, porque a Universidade de Lisboa tem mais dinheiro, mais recursos para isso e isso não podemos aceitar. Os critérios para a ação social devem ser universais e todos os alunos de todas as universidades devem poder ter acesso e a única forma de o garantir é ter um sistema centralizado, de responsabilidade do Estado, que define critérios universais, iguais para todos, seja qual for a universidade. Hoje em dia, até nos privados os alunos podem ter ação social. E isso é correto, não é?


SOCIALIS: Tomou posse em março de 2018; que balanço é que nos pode fazer sobre este primeiro ano e quais são as prioridades para este mandato?


MLR: Bom, como sabem o ISCTE-IUL tem um estatuto, é um instituto universitário, não é uma universidade. O que é que daqui decorre? Decorre que é uma universidade, e, portanto, tem que ter cursos de doutoramento e de mestrado com um peso maior do que as licenciaturas, tem que ter mais alunos de doutoramento, mais alunos em pós-graduações; tem que ter formação avançada, formação pós-graduada. É isso que distingue uma universidade de um instituto politécnico, que estão mais centrados na formação de licenciados. E por outro lado, este nosso estatuto condiciona as atividades que podemos desenvolver. O ISCTE-IUL não pode pensar em ter um curso de medicina ou um curso de agricultura, na área da agronomia.


Nós estamos obrigados a fazer um desenvolvimento científico e disciplinar ancorado nas nossas áreas fundadoras que são as ciências sociais e humanas, a gestão, a economia, a psicologia, a antropologia, a sociologia, agora também as engenharias informáticas e a arquitetura e é esse o nosso campo de atividade. De que é que necessitamos? De tirar partido de termos um campus concentrado e aprofundar a interdisciplinaridade e o cruzamento de áreas científicas. E neste esforço definimos duas novas áreas científicas prioritárias que cruzam os saberes e as competências das quatro escolas.


Foi a ciência de dados: criámos cursos de licenciatura, pós-graduação em ciência de dados e em ciência de dados aplicada. E estamos agora a enfrentar um grande desafio, que é oferecer pelo menos uma unidade curricular de ciência de dados em todas as licenciaturas. Para podermos dizer que os alunos que saem do ISCTE-IUL, seja qual for o seu curso de licenciatura, seja qual for a sua área de formação, têm competências em ciências de dados. Sabe o que é inteligência artificial, sabe o que é que são os desafios de estruturar dados não estruturados.


Portanto, isto é um grande desafio, criámos um grupo de trabalho, estamos a fazê-lo. Eu espero que, no próximo ano, isto possa ser uma realidade e que possamos dizer que todos os nossos alunos tiveram pelo menos a oportunidade de um contacto com a ciência de dados. E a outra área que definimos também como prioritária foi a ação humanitária. Porquê? Porque a ação humanitária requer competências profissionais que existem no ISCTE-IUL. As competências mais importantes para a ação humanitária são na área da logística, na área da gestão de projetos, na área dos refugiados e das migrações, da gestão de recursos humanos.


Quando nós olhamos para o ISCTE-IUL, o ISCTE-IUL forma profissionais em todas estas áreas, mas não para a ação humanitária. Forma para o mercado, para as instituições públicas e, portanto, definimos um novo segmento de enquadramento dos nossos alunos, dos profissionais que aqui formamos para a ação humanitária. Consequentemente, abrimos um ciclo de conferências internacional para ganharmos reputação e para ganharmos know-how e criámos já os cursos. Vai abrir um curso de verão este ano, abrirá uma pós-graduação no próximo ano letivo, portanto, estamos a trabalhar no desenvolvimento destas áreas. Isto é no que respeita às áreas disciplinares e às áreas de trabalho; para além do que o ISCTE-IUL já faz, abrimos estas duas novas áreas.


Está a ser desenvolvido um projeto de integração que reunirá todos os nossos centros de investigação

Depois temos o grande desafio das residências: estamos a trabalhar com muito empenho e muita energia na questão das residências. E temos a integração do IMT (Instituto da Mobilidade e dos Transportes) no campus do ISCTE-IUL. A anterior reitoria tinha o projeto de demolir o edifício do IMT e construir um edifício novo para a hospitalidade e turismo; abandonámos esse projeto, portanto, está a ser desenvolvido um projeto de integração que reunirá todos os nossos centros de investigação.


Vamos criar uma espécie de centro de conhecimento e inovação, e os centros de investigação ficarão reunidos ali naquele espaço, os cursos de doutoramento passarão a desenvolver-se naquele espaço. Esse é um grande projeto. Relativamente às residências, estas têm várias dimensões, não é? Têm um problema de património, o ISCTE-IUL não tem património, ao contrário de outras universidades; têm um problema de financiamento, o ISCTE-IUL também tem poucos recursos para investir, para recuperar ou para construir residências; e depois o da capacidade de execução. E, portanto, o que fizemos neste ano foi angariar património. E conseguimos protocolos com a câmara da Amadora, com a câmara de Odivelas, com o Instituto da Gestão Financeira da Segurança Social, com a Santa Casa da Misericórdia e neste momento temos um conjunto de edifícios, terrenos, etc. onde vamos poder desenvolver projetos de residências.


Aprofundar a interdisciplinaridade e criar novas áreas de trabalho que reúnam todas as escolas, a integração do IMT para instalar os centros de investigação e dar-lhes uma outra visibilidade para a cidade e as residências dos estudantes

O financiamento também está resolvido por negociação com o governo, o acesso a financiamento para desenvolver esses projetos. O que nos falta é o instrumento da sua concretização, porque para fazer esses projetos são necessárias capacidades, competências em engenharia, em arquitetura, condução de obra, etc. E estamos a cuidar agora desta terceira dimensão do problema. Portanto, são estes três os nossos grandes objetivos maiores, digamos assim: aprofundar a interdisciplinaridade e criar novas áreas de trabalho que reúnam todas as escolas, a integração do IMT para instalar os centros de investigação e dar-lhes uma outra visibilidade para a cidade e as residências dos estudantes. É isto.


SOCIALIS: Enquanto mulher, quais são as principais dificuldades que encontra ao assumir um cargo mais alto, tanto no meio académico como na esfera política?


MLR: No meio académico não existem muitos problemas. O meio académico é maioritariamente constituído por professoras. O que temos é, de facto, poucas mulheres depois nos lugares de direção. Reparem, aqui no ISCTE-IUL, estiveram durante 12 anos seguidos, direções ou reitorias constituídas só por homens. Isso é que é uma anormalidade, não é? Isso é que não é uma coisa razoável, sobretudo quando há tantas colegas [mulheres].


E, portanto, isso hoje acho que está em vias de resolução, as mulheres também têm que aceitar os desafios da liderança, não é? Nós vamos ter uma mulher presidente do conselho científico, vamos ter uma mulher presidente do conselho pedagógico, temos já uma mulher na reitoria e vamos… temos uma não, temos até mais na reitoria propriamente, como vice-reitoras, mas estou eu como reitora. E o que eu espero é conseguir estimular, desafiar as minhas colegas para aceitarem os lugares de responsabilidade, aceitarem esses desafios. De resto, é um ambiente natural, é um ambiente muito misturado, um ambiente na academia e nas universidades e não sinto nenhuma dificuldade.


Na política… porque as mulheres quando estão nestes espaços estão, em regra, muito sozinhas.

Devo dizer, eu comecei a trabalhar muito jovem e com um lugar de responsabilidade. Tinha 21 anos quando comecei a trabalhar e aos 22 já estava a dirigir uma equipa e com responsabilidades de direção… cedo demais, um pouco cedo demais, hoje quando olho para trás. Mas ao longo da minha carreira, como académica, como dirigente nos vários lugares de responsabilidade e até como governante, a área de atividade em que senti maior dificuldade por ser mulher foi justamente na política. Na política… porque as mulheres quando estão nestes espaços estão, em regra, muito sozinhas.


Ao contrário da academia em que eu não me sinto sozinha, tenho imensas colegas e o ambiente é um ambiente, digamos, normal. Na política, é muito mais fechado e quando se assumem estes lugares de responsabilidade, é preciso, para compreender verdadeiramente as dificuldades, é preciso ter presente que se chegou a esses lugares por razões excecionais e que às mulheres, não lhes pode ser exigido que sejam excecionais para chegar onde homens normais chegam, não é? Tem que ser mais natural, mais normal a presença de mulheres na vida política.


SOCIALIS: O ISCTE-IUL aderiu recentemente ao projeto SAGE (Systematic Action for Gender Equality), portanto, adotou um plano para a igualdade de género. Quais foram as motivações para tomar esta medida?


MLR: As motivações são as obrigações de cidadania. Quer dizer, temos que, de facto, não apenas ter um discurso ou uma visão sobre as questões da igualdade de género, mas ter uma prática . É muito importante no nosso dia a dia resistir, estar atentos a isso. Forma-se um painel de discussão de qualquer coisa, devemos olhar para esse painel deste ponto de vista: perceber quantos homens e quantas mulheres foram convidados e procurar garantir que a igualdade de oportunidades de género está lá. Que estão mulheres também. Às vezes não é fácil. Mas temos que, todos os dias, quando tomamos decisões que envolvam painéis de discussão, grupos de trabalho, nomeação para lugares de responsabilidade, ter presente que essa é uma exigência. Hoje, a igualdade de género é uma exigência, portanto não podemos formar grupos só de homens ou só de mulheres, não é? Temos que garantir essa diversidade.


SOCIALIS: Sente falta da componente letiva?


MLR: Um bocadinho, sim. Por isso é que eu falo muito [risos]; é como se estivesse a dar uma aula, vocês fazem-me uma pergunta e eu começo a falar, como se estivesse a dar uma aula.


SOCIALIS: Foi a primeira mulher a ser eleita como reitora do ISCTE-IUL. O que é que significa para si assumir esse cargo?


MLR: Significa muito porque, reparem, eu tive várias conversas com o anterior reitor e umas das situações que tinha referido muitas vezes era que não era aceitável que a reitoria fosse constituída apenas por homens. Havia tantas mulheres, tantas colegas… e estava fora de causa que eu estivesse a falar de mim porque eu nessa altura até estava na FLAD [Fundação Luso-Americana para o Desenvolvimento] e não podia sequer assumir essas responsabilidades. Primeiro estava no ministério, depois estava na FLAD e, portanto, eu nem tinha disponibilidade. Eu estava a falar era da situação do ISCTE-IUL, que me parecia pouco normal que numa escola onde existiam tantas colegas professoras, se fizesse um recrutamento para os órgãos da direção, mas não era só a reitoria… Era a reitoria que durante 12 anos não teve uma única mulher, mas depois o conselho científico, o conselho pedagógico eram sempre homens.


Teve, para mim, um significado particular porque eu estava muito incomodada há vários anos com o facto do ISCTE-IUL ser pouco sensível à igualdade de género nos órgãos de topo e de gestão da universidade

No conselho pedagógico tivemos uma vez uma colega, a colega Madalena Ramos, mas de resto, se olhar para a história dos órgãos de gestão e de consulta, dos órgãos consultivos do ISCTE-IUL… Sempre homens. Porquê? Não há uma razão para isso a não ser de discriminação negativa das mulheres. E, para mim, teve esse significado, porque ainda por cima está nos estatutos do ISCTE-IUL que a reitoria promoverá a igualdade de género. Mas depois não promovia a igualdade de género. E, portanto, para mim isso foi muito importante, era dar um sinal também às minhas colegas de que era possível, de que devíamos, de que há aqui uma responsabilidade. Teve, para mim, um significado particular porque eu estava muito incomodada há vários anos com o facto do ISCTE-IUL ser pouco sensível à igualdade de género nos órgãos de topo e de gestão da universidade. E, portanto, também impus a mim mesma às tantas dizer: não só me vou candidatar como formarei uma reitoria com mulheres porque elas existem, estão aqui. E isto não é nada contra os meus colegas homens, como é evidente, nada contra eles, mas é criar aqui um espaço em que se respire de maneira diferente.


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