PANDEMIA: NOVAS FORMAS DE VIVER

O alinhamento da presente edição já estava fechado e a escrita dos artigos em curso quando surgiu a pandemia do novo Coronavírus. A equipa do SOCIALiS decidiu, no entanto, aumentar a edição de modo a incorporar este tema de atualidade. Recolhemos testemunhos de estudantes e trabalhadores/as, residentes em Portugal ou no estrangeiro que descrevem, na primeira pessoa, de que forma os seus quotidianos e contextos de vida foram afetadas nas últimas semanas.

 
 
 

ANDRÉ VILANOVA

31 anos, Treinador de Futebol / Coordenador Desportivo – Palmelense F.C.

"A minha rotina passa por acordar cedo, antes da 9h, pois estou em teletrabalho. Tento não me desleixar com as horas de sono e de descanso. Sempre que posso faço 1h de bicicleta elíptica que tenho em casa, faço normalmente entre duas a três vezes por semana... para manter alguma sanidade mental. Sempre que necessário vou às compras no hipermercado aqui ao pé de casa... uma vez por semana, depende.

Neste momento sinto algum receio em sair de casa. Estou apreensivo. Das poucas vezes que saio sinto-me nervoso e às vezes até parece que não me sei “comportar” na rua.

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A nível comportamental as pessoas vão ter outro tipo de cuidados a ter depois desta fase acabar. Possivelmente vão lavar mais as mãos e evitar o contacto desnecessário para com o outro. Acredito que irá haver mudanças e até os espaços públicos deverão ter cuidados com o higiene que até aqui não tinha, por exemplo desinfectante acessível a todos em pontos comuns, etc."

ANNA EPPLES

29 anos, Técnica de Serviço Social na Alemanha

"Aqui ainda podemos sair, assim tento sair uma vez por dia e dar um passeio. Também tento cozinhar e não comer só "take away". E acordo cedo para não perder o ritmo do dia.

 

Estou bem porque acho que estamos numa situação de luxo (pelo menos aqui na Alemanha), já que o sistema de saúde está bem e não há problemas nos supermercados, nem nada... estou com receio relativamente ao que se vai passar com o resto do mundo: com os refugiados nos campos, com os outros países que têm um sistema de saúde e economia mais fraca. E também como a sociedade vai mudar. Mas eu própria e os meus amigos estamos bem e também falamos muito sobre a situação e que estamos bastante bem em relação a outros países e outras pessoas.

 

Espero que percebamos melhor que trabalhos são importantes para a sociedade e onde temos que mudar. Espero igualmente que as pessoas percebam melhor o que é importante na vida (não é o dinheiro e ter coisas), que o importante é mais o contacto social e espero que se valorize mais. Mas não sei o que vai mudar porque não se sabe como vai continuar a situação - se vai piorar ainda. Também poderá não mudar nada, no fim, porque a economia é demasiado forte."

ANÓNIMO 

25 anos, Estagiário da PSP

“A minha rotina tem sido calma, nota-se uma grande diferença no número de ocorrências, a criminalidade está mais baixa, a nossa rotina foca-se mais, neste momento de pandemia, em sensibilizar as pessoas e em fazer operações de fiscalização de trânsito.

Em relação às fiscalizações de trânsito a maior parte das pessoas deslocava-se para trabalhar ou cuidar de alguém, contudo, existiram alguns casos excecionais de pessoas que não tinham motivos válidos para se estarem a deslocar mas esses eram mandados para trás de volta às suas residências.


O meu estado de espírito neste momento é de desânimo, por devido à pandemia não estou a conseguir aprender e pôr em prática aquilo que era suposto.

A adaptação foi boa, fomos todos bem recebidos e em orientados. Mas ainda não nos deparámos com a realidade do serviço policial.


Na Polícia, em princípio, não irá haver um grande impacto da crise, apenas se irá sentir na progressão de carreira, vai sofrer um atraso.”

BRUNA ALEXANDRA

22 anos, Estudante da Licenciatura de Sociologia

"Acredito que a minha rotina não seja muito diferente da rotina das outras pessoas… Também vejo séries, filmes, também estudo… Acho que o tempo que temos agora é demasiado para aquilo que estávamos habituados. A ideia do podcast surgiu simplesmente porque ouço alguns, e os meus dias estavam a ser pouco produtivos (a preguiça está a apoderar-se de muita gente), então comecei por fazer a capa. Distraí-me bastante a escolher a foto, a pensar no nome… Depois ocupei imenso tempo a pesquisar como é que isto se fazia, e estava a gostar cada vez mais da ideia. Quando gravei o trailer do podcast pensei: “isto afinal é divertido”.

Por isso, a minha rotina após começar um podcast… Faço tudo o que fazia e encaixei o podcast muito facilmente! É algo que nos ocupa a cabeça, porque, temos de pensar em temas, pensar no que queremos abordar dentro do tema, fazer uma espécie de guião (para não me perder quando estou a falar), e a parte mais divertida é “brincar” com a parte do som, fazer cortes, e depois… publicar! A minha rotina tornou-se mais “cheia”, mas encontrei uma coisa que me diverte e por isso o tempo é passado de forma mais positiva.

Espírito positivo sempre! Estou a cumprir com o isolamento, apenas saio ou para ir ao supermercado, ou para ir trabalhar, acho que é esse o meu dever. É normal as pessoas estarem mais stressadas, não estar com ninguém afeta imenso o nosso estado de espírito. Mas, uma das coisas boas que o podcast me trouxe, foi o estar em contacto com mais pessoas. Tenho mais pessoas a interagir comigo neste momento, e isso é bom! Falar com pessoas ajuda-nos a manter-nos sãos, precisamos de estar positivos neste momento, e o estar distraído com coisas que nos fazem sentir bem, é o melhor que pode haver.

O pós-crise já me preocupou mais para ser sincera… O podcast tem o propósito de me divertir a mim, ao fazê-lo, e aos outros, por o ouvirem. Se planeio continuar? Claro. Se não faltar conteúdo então o objetivo é continuar, mesmo quando isto tudo voltar ao “normal”, apesar de saber que vou ter menos tempo para o fazer, mas se não lançar um episódio todas as semanas, lanço de duas em duas… O vir a ter menos tempo não é impedimento para o podcast, a única coisa que pode levar a que ele acabe, é achar que já não estou a ser ouvida por ninguém e não estar a produzir nada que me divirta a mim, e aos que me ouvem!"

EDUARDO FERNANDES

22 anos, Aluno de Ensino Secundário

"No início deste ano ninguém estava à espera que a situação do Covid-19 iria acontecer. Muitas das pessoas, tal como eu, não levaram a sério. Na semana de 13 de março, estava a finalizar a inscrição para os exames nacionais para dar progresso ao meu futuro académico, e foi aí que percebi que já não era um motivo para gozar. Na semana seguinte, no dia 18 de março, o Presidente da República declarou estado de emergência. Foi aí que a vida de todas as pessoas virou. Temos tido uma grande mudança de rotina, temos mais cuidado com a nossa higiene e temos ficado bastante tempo em casa. Para muitos dos alunos, quer universitários, secundários, ou básico, as aulas online tem sido uma "ajuda" para não perder o ano letivo, mas mesmo assim não foi o plano perfeito. Eu estou no meu gap year, ou seja, tirei um ano da minha vida para me focar somente nos exames, por isso as aulas online são inexistentes. Fechar em casa, contudo foi uma parte que me mudou bastante a nível psicológico. Eu antes era uma pessoa bastante fechada, introvertida e não falava porque achava que não valeria a pena dar a minha opinião. Durante 1 semana estava bastante deprimido, não sabia o que fazer. Os meus amigos, os meus conhecidos, os meus futuros amigos e conhecidos, tinha bastantes saudades deles. Com esta situação toda apercebi-me da grande falta que eles me fizeram, fazem e farão. De todos os tempos em que podia ter feito algo mais, mas deixei-me a ir por hábitos. Com isso em mente, decidi que quando tudo terminasse, iria ser muito mais ativo que antes, dizer o que antes não disse, abraçar com todas as minhas forças. Para muitas pessoas tem sido uns tempos negros, os piores de qualquer altura, mas para mim foi um abrir de olhos. Tornou-me muito mais positivo, energético e com uma vontade de viver."

HANNA TKACHUK  

21 anos, Estudante da Licenciatura de Marketing Digital

"Em relação à primeira pergunta de os impactos socioeconómicos que posso vir a ter, eu não estou a trabalhar, estou em regime de lay off, portanto os meus rendimentos são mais baixos. Desta forma, não sei se conseguirei o curso todos os meses. Portanto, se eu não conseguir vou ter que talvez deixar. Em relação à segunda pergunta em relação às alterações nas minhas rotinas que eu tive, portanto, eu passei a acordar mais tarde porque também me deito mais tarde, comecei a fazer mais exercício físico, a ler mais, cozinho mais, arrumo , limpo, comecei a ter mais tempo para mim, fazer coisas que eu não fazia porque era por falta de tempo. Por fim, a terceira pergunta em relação ao estado de espírito, portanto, eu sinto-me ansiosa, deprimida, frustrada, mas também otimista. Ninguém sabe quando é que isto vai passar. É uma situação complicada, estar em casa de quarentena. Acho que ninguém sabe lidar muito bem com esta situação, mas estou bastante otimista, porque acho que Portugal vai conseguir enfrentar. Na Ucrânia a situação está difícil. Não estão a fazer testes suficientes. As aldeias têm imensos idosos e não há cuidados suficientes. A minha avó disse-me que o estado fechou tudo, até o comércio. Eles permanecem em casa isolados, mas não sei como vai ser daqui para a frente."

JOANA DE OLIVEIRA 

38 anos, Responsável por vendas e logística em França

"Em França, o isolamento é muito regulado: as saídas são proibidas a menos que se tenha um certificado, apenas uma saída por dia com duração máxima de uma hora. Em caso de não respeito podemos receber uma multa.

As crianças estão confinadas há um mês, não têm escola. Às vezes, os professores enviam trabalho, mas não é regular. O vínculo social está quebrado com muitos dos amigos e professores. Por estarem pouco ocupados pela escola, levantam-se mais tarde, ficam mais descansados, mas não se sabem entreterem muito. Os pais têm de encontrar ocupações: jogos, atividades, exercícios escolares, leitura...

Muitas empresas estão fechadas, a grande maioria da população está confinada. Eu trabalho nas telecomunicações (internet fixa e móvel), sou responsável por vendas e logística. O meu trabalho não pode ser feito desde casa, então vou ao escritório todos os dias. A minha vida diária é inalterada, mas a situação é muito estranha: as ruas e os escritórios estão vazios, empregados limitados ao mínimo, mas continuamos com carga de trabalho, temos de solucionar problemas nas redes.

A compra de comida é complicada, a França tem muitos drive, pouca gente vai ao supermercado. Muitos produtos estão fora de estoque e conseguir fazer encomenda tornou-se muito complicada, por isso procuramos soluções alternativas, como comprar local (verduras e carnes).

Em casa, nossa vida não mudou, ainda temos as mesmas ocupações: cozinhar, fazer horta, brincar juntos, ler ... São momentos preciosos de compartilhar, que têm um lado surpreendente: conflitos mais intensos principalmente entre as crianças.

Deste isolamento resulta um pensamento sobre a mudança de nosso modo de vida. No futuro, vamos pensar em dar prioridade ao consumo de produção local. Também temos uma grande consciência da liberdade que temos: o livre movimento. Um bem muito precioso que nos faz tanta falta hoje. Vivemos num pais de direitos e essa situação nos faz pensar numa guerra ... uma guerra contra um inimigo invisível: o vírus. Mas os homens têm uma qualidade insuspeita de muitos: a resiliência. Amanhã será um dia melhor e os homens sairão crescidos."

JOANA FERREIRA

24 anos, Educadora de Infância

"Criar uma rotina nestes tempos de quarentena não foi, nem tem sido fácil. A princípio não consegui implementar qualquer tipo de rotina, mas comecei a notar, física e mentalmente, que não ter uma rotina minimamente estruturada, não me estava a fazer bem. Eu antes de isto começar e de termos de ficar em casa, tinha uma rotina muito estruturada. Aos dias de semana, acordava sempre à mesma hora para ir trabalhar e no trabalho tinha sempre a mesma rotina estruturada e depois saía sempre (ou quase sempre) à mesma hora. Esta organização do meu dia já estava automatizada e foi difícil a mudança.

Agora conversando com familiares, amigos e com colegas do trabalho consegui criar uma rotina em que acordo sempre à mesma hora, mas mais tarde do que quando ia trabalhar, tomo o pequeno almoço, trabalho um pouco no computador, envio mails, falo com pais das crianças com quem trabalho e com colegas. Depois faço 16 minutos de treino com um PT, que faz diretos no instagram e vou tomar banho. De seguida vou preparar alguma coisa para almoçar e vejo um pouco de televisão. A seguir volto para o computador para fazer pesquisas para o trabalho entre outras coisas e faço vídeos para depois enviar às famílias e crianças. Por vezes treino novamente com amigos meus, onde acabamos por falar e estar juntos. A parte mais difícil do isolamento é estar afastadas dele e da minha família. Ao fim de semana a rotina muda um pouco, a nível de horas e de trabalho, mas essencialmente é assim que estão organizados os meus dias.

 

Neste momento, estou muito cansada e farta de estar em casa. Penso ser geral este sentimento. Existem dias que me sinto melhor outros que nem tanto, normalmente quando penso no porquê de termos de estar em casa e em toda esta situação. O início da quarentena foi pior, ao nível de estado de espírito, estava mais em baixo e receosa. No entanto, agora sinto-me melhor e mais preparada para viver as consequências desta pandemia. Existirá sempre riscos, mas temos de lutar para que consigamos continuar a ter uma vida boa, pensando também no nosso futuro.

 

Acredito que existirão consequências a vários níveis. A nível económico e financeiro, mas essencialmente a nível psicológico. Vão ser muitas as pessoas que necessitarão de apoio emocional para ultrapassar esta fase das nossa vidas. A nível económico deve-se ao facto de muitos postos de comércio terem, na sua maioria, fechado, o que quebra o crescimento da economia e trás também o desemprego, pobreza, e outras muitas perdas."

JOSÉ JÚLIO FILIPE 

Professor de Matemática do Ensino Básico

"A rotina sofreu uma alteração enorme, quase uma rotação de 180º, com a agravante de ser repentina e abrupta. Desde logo, o receio de andar livremente na rua, os cuidados a ter e o distanciamento social. Em casa, hábitos de higiene redobrados, desenvolvimento de novos conhecimentos na cozinha e redescobrir novas formas de ocupar o tempo e gerir melhor o dinheiro. O estado de espirito +e de otimismo e considero que aquilo que não nos mata torna-nos mais fortes.

 

O ensino à distância envolve em si vários constrangimentos. Desde logo, como chegar a todos os alunos de igual forma. Todos os canais que possamos usar envolvem certos riscos e perigos para os quais também não estava sensibilizado. A adaptação a esta nova realidade tem constituído uma enorme oportunidade de desenvolver competências digitais.

 

Parece ser consensual nas opiniões unanimas dos peritos, que as consequências serão muito negativas, mesmo dramáticas a nível económico e, consequentemente, a nível social. No entanto, haverá sempre janelas de oportunidades e o desenvolvimento de novas competências que nos tornarão mais fortes e resistentes."

LUÍSA MOREIRA

23 anos, Enfermeira

"A minha rotina profissional mudou bastante, apesar de não estar na linha da frente no combate ao coronavírus e de trabalhar numa maternidade, nunca sabemos se as grávidas e os seus acompanhantes são positivos para a covid-19 ou não, e por isso temos de tomar as devidas precauções e usar o equipamento de proteção individual. Em termos práticos o que mudou foi a preparação antes de entrar no serviço, o percurso de entrada no hospital, para não haver contacto com outros serviços mais propícios ao vírus, e é medida a temperatura corporal sempre à entrada do hospital, o que atrasa, assim, passei a ir mais cedo para o trabalho. ou Outra dificuldade que sinto é usar o equipamento de proteção individual, nomeadamente a máscara cirúrgica, durante 12 horas (duração do meu turno), é bastante incomodativo, provoca reações alérgicas á pele e aumenta o calor sentido, tornando-se bastante desconfortável.

Nos cuidados diretos aos clientes, sinto que há um medo acrescido do toque dos profissionais de saúde por parte dos pacientes, pois sabem que somos um grupo de risco para testar positivo para a covid-19, apesar de todos os cuidados que temos. No entanto, e apesar de tudo isto, os recém-nascidos continuam a nascer, e nós a ajudar as famílias nos primeiros dias de vida nessa nova e tão emocionante fase da vida do casal. Posso dizer que tudo vale a pena quando o turno acaba e sentimos que ajudámos tantos casais e recém-nascidos a dar os primeiros passos nessa viagem que agora começa.

 

Quanto ao meu estado de espírito, no início sentia medo e preocupação pois não sabíamos como a curva epidemiológica iria ser em Portugal e não sabíamos como o vírus atuava em grávidas e bebés. No entanto, e nesta fase já pós pico epidemiológico, sinto-me mais tranquila, apesar da preocupação continuar, mas estou bastante esperançosa pois a nossa capacidade de resposta tem sido muito boa e a população parece estar a cumprir as indicações da DGS e diretrizes internacionais. O que vejo no meu serviço é que apesar das coisas por vezes parecerem aflitivas, o mundo não pára, os bebés continuam a nascer, as grávidas continuam a precisar de ser vigiadas e as pessoas continuam a precisar de trabalhar. Portanto acho que aos poucos e poucos o mundo deve voltar ao normal, com as devidas precauções, mas que não podemos continuar neste ritmo muito mais tempo pois prejudicaria economicamente muitas famílias.

 

As consequências pós crise, economicamente, são desastrosas para alguns negócios e vão criar muitas dificuldades para voltarem ao normal. No entanto, acho que há bastantes consequências positivas deste vírus, nomeadamente a abertura das empresas para a possibilidade de teletrabalho, a valorização das pessoas ao convívio uns com os outros, e a união das famílias.  ou A mim diretamente, talvez a valorização da sociedade á profissão da enfermagem é uma das consequências positivas. Consequências negativas, a incerteza de poder realizar o meu casamento que se realizará (se assim a epidemia deixar) no verão.  Veremos, sempre com esperança!"

MARGARIDA FERREIRA

20 anos, Trabalhadora-estudante, Licenciatura de Direito

"A minha rotina não teve muitas alterações, continuo a fazer algum exercício em casa, todos os dias despacho-me como se fosse à rua, estudo como estudava antes. Se calhar a maior diferença que eu diria está assente mesmo nos transportes por não apanhar o comboio todas as manhãs. Em vez de me levantar um pouco antes das 6h da manhã, levanto-me 20 minutos antes das aulas online.

Quanto ao meu estado de espírito eu sinto-me calma, preocupada com a situação porque não é propriamente uma situação fácil, preocupada porque tenho grande parte da minha família na linha da frente no combate, mas calma porque estou confiante que isto vai acabar tudo bem. Estar fechada em casa poderia ser pior, não me está a afetar assim tanto a nível psicológico como eu pensei que me poderia vir a afetar.

Relativamente às consequências, não vamos falar das consequências claras porque estamos a falar da perda de vida das pessoas, pessoas que podem ficar com sequelas em termos pulmonares depois. Eu acho que vai-nos deixar com sequelas em termos sociais porque eu creio que muitas pessoas quando tornarem a fazer as suas vidas pouco a pouco vão ter algumas dificuldades em termos sociais por terem estado tanto tempo em casa fechadas sem conviverem ou a conviverem sempre com as mesmas pessoas 24/24h. Eu creio que em algumas coisas vão haver melhorias, tenho a impressão que o Sistema Nacional de Saúde vai acabar por se ordenar um bocadinho mais depois desta necessidade, pois acho que eles vão conseguir melhorar em termos de respostas por se aperceberem da capacidade que conseguem suportar. Mas, honestamente em termos de hábitos como, por exemplo a questão de não estarmos constantemente todos uns em cima dos outros, essas coisas típicas do português porque o povo português é por si mesmo um povo que é muito afetuoso, que gosta muito de contacto físico com as outras pessoas, eu acho que não vai mudar assim grande coisa."

MARIANA JERÓNIMO

20 anos, Estudante do 2º ano do curso de Educação Básica em Erasmus na Bélgica

"Pandemia, esta foi a palavra que se veio juntar à minha experiência de Erasmus. Saí de Portugal de malas e mochila às costas e à espera de fazer e ver tudo aquilo que me haviam “prometido” e com o que eu própria tinha sonhado. Cheguei à Bélgica sabendo de antemão que o COVID-19 existia, mas não era ainda parte do meu dia-a-dia.

Comecei este novo capítulo numa pequena terrinha no meio da Flandres, a cerca de 45 minutos de transportes de Antuérpia. Aqui estou numa faculdade de Educação, tudo é complemente novo e diferente do que estou habituada. Não podia ter sido melhor, nova casa, novas colegas, novas pessoas a morar comigo (começaram por serem duas holandesas e uma belga e por fim mais uma portuguesa), nova visão do que é uma faculdade, visitas diversas através da universidade aos Países Baixos, Alemanha e à própria Bélgica, a escolas e a projetos educativos. Aqui aprende-se num misto perfeito entre teoria-observação-prática- teoria..., um círculo completo de conhecimento, na minha opinião. A tudo isto acrescentei outras novidades próprias de uma etapa em que, pela primeira vez, me encontrei a viver sozinha: novo supermercado, nova rede de transportes, nova forma de vida, uma nova visão de mim e novas línguas que passaram a fazer parte do meu dia-a-dia e até dos meus sonhos. Os meus dias da semana eram divididos em três partes: parte da manhã- acordar as 8h despachar-me e ir tomar o pequeno-almoço com as minhas colegas holandesas, de seguida arrancávamos para a faculdade, porque as aulas começavam às 9h. De casa à escola demoramos 2 minutos a pé, uma vez que moramos muito perto; parte da tarde- terminada a manhã, saia da faculdade e vinha a casa pensar no almoço e almoçar, trocar as coisas ou ir buscar algum material necessário para as aulas do período da tarde e depois voltava para as aulas. parte da noite- pensar no jantar, arrumar as coisas, cozinhar, lavar a loiça, fazer as videochamadas em família, tomar um duche e ir dormir. No fim-de- semana, a rotina mudava ao sábado de manhã limpava a casa e o meu quarto, depois ia ao supermercado a Herentals – uma terra aqui perto, maior do que aquela onde estou a viver - de autocarro, comprar coisas que necessitasse para a semana. O domingo era o dia em que acordava mais tarde e passava o dia a terminar trabalhos para segunda-feira. As minhas aulas por aqui consistiam em ir às escolas, participar em projetos com alunos belgas que vinham de outros campus, ir a museus e fazer alguns testes escritos sobre esses momentos. Eram estes os moldes de funcionamento do meu curso aqui, especialmente desenhado para turmas de Erasmus, com alunos de vários países.

Efetivamente, e como é normal nas experiências de Erasmus os meus dias passaram a ter de integrar um planeamento de coisas que, até então, eu não sentia como necessidade minha, por exemplo pensar no que vou almoçar e jantar. Dei por mim a estudar quais eram os supermercados que seriam os melhores para ir comprar o que ia precisando para comer, não sabia ainda como planear compras para refeições que durassem mais do que uma semana, porque sempre que precisava, nem que fosse apenas de um pacote de massa, eu saía de casa e ia ao supermercado comprar. Foi esta a minha realidade nos primeiros dias que juntos fizeram cerca de 1 mês e meio da minha experiência de Erasmus.

A realidade mudou repentinamente e com ela as notícias sobre o alastrar do vírus passaram a fazer parte do meu dia-a-dia: “número de mortos aumenta”, “número de infetados cresce exponencialmente em apenas 24h”, e eu sem saber as implicações que isto tudo teria. Foi crescendo o medo de fazer parte deste “número de infetados” de que todos falavam. Porém, ia permanecendo uma réstia de esperança, porque inicialmente Portugal estava “a salvo” deste vírus que já andava a passear pelas ruas da Bélgica. No entanto, de repente e com a mesma celeridade do resto da mudança, o meu mundo começou a desabar “dois infetados confirmados em Portugal”. Este vírus passou a mexer na minha estrutura!

Foi no dia 11 de março que, no meio de um dia normal de projeto, um e-mail da faculdade cai na minha caixa de correio, foi nesse dia que, para mim, tudo se tornou real e mais assustador. O e- mail informava que a partir do dia seguinte a faculdade iria fechar, por que se tratava de uma instituição com milhares de estudantes locais e internacionais, com uma equipa bastante extensa de funcionários. Assim, o normal funcionamento passaria a ser restrito e as aulas seriam online. Tudo mudou de um dia para o outro, já não havia mais o contacto com as pessoas, já não havia mais as visitas de estudo, já não havia mais viagens para sítios novos. De um momento para o outro, tudo passou a ser entre 4 paredes, em casa, a acordar 30 min antes da aula para me sentar ao computador, para entrar no Skype e ver as pessoas que faziam parte do meu dia-a-dia através de pequenos quadradinhos. Houve uma quebra/rutura com aquilo que já se estava a tornar na minha realidade em Vorselaar, e o COVID-19, sem ser convidado, passou a ser meu colega de Erasmus, fez-me começar a mudar a forma como lidava com coisas tão normais como ir ao supermercado, ou estar com as minhas colegas de turma que moram a 5 minutos da casa onde estou a morar desde que aqui cheguei. Senti que o nosso Erasmus estava em perigo!

Em casa, moro com duas colegas dos Países Baixos, e no país delas as medidas têm sido diferentes, lidam com muita tranquilidade com o aparecimento deste vírus, ou como elas próprias dizem de uma forma “adulta”. Porém, vivo com outra colega de casa que é portuguesa como eu, e as medidas que ambas implementamos são totalmente diferentes, acredito que têm na sua base a prevenção e a segurança. Penso que cada uma de nós precisa de acreditar na informação que os nossos pais e o nosso país nos passa como sendo a verdade... será?

Da nossa turma, as nossas colegas que moram perto de mim são espanholas, sei que se sentiram divididas entre ficar, ou partir para Madrid - que é onde moram -, mas nesta situação a razão falou mais alto e a decisão acabou por ser a de ficar para se protegerem e protegerem as suas famílias.

Das diferentes faculdades de origem (Portugal, Países Baixos, Espanha) começaram a ser enviados e-mails sobre este assunto. Para as minhas colegas dos Países Baixos, o e-mail pedia que elas regressassem ao país, no entanto elas quiseram ficar e terminar esta experiência ainda que em condições tão diferentes das expectáveis. A decisão delas foi possível através da ajuda das suas famílias, e assim ficaram em Vorselaar. Eu e a minha colega portuguesa também recebemos um e- mail a dizer que poderíamos voltar, se assim o desejássemos. A decisão foi conversada com as nossas famílias e ambas decidimos ficar. Em Vorselaar, a faculdade acionou, automaticamente, mecanismos para gerir os seus alunos, as suas preocupações e possíveis momentos de stress devido a toda esta situação. Foram aplicados questionários para perceberem como estão a viver os alunos internacionais, e se estes têm conhecidos na Bélgica que possam ser a sua rede SOS e disponibilizado um serviço de psicologia.

A minha opção de ficar resultou, sobretudo, desta vontade de não querer perder tudo isto. É uma experiência que planeei com muito detalhe e com muito tempo de antecedência, tem sido uma fase com muitos altos e baixos, mas agora que aqui estou irei até ao fim! Custa-me estar longe da família, mas vamos gerindo as saudades com mensagens, videochamadas e suportes como vídeos e fotos para não perdermos nada. É difícil viver numa casa com pessoas que não partilham as mesmas rotinas que eu, e em que duas delas nem partilham o mesmo país, por vezes pode-se tornar confuso. Senti que foi difícil definir as ditas “regras de segurança e prevenção” nesta nossa casa internacional, algumas vezes fui considerada “maluca e uma pessoa que pensava demasiado”, porque queria estabelecer as regras de Portugal aqui. Cada uma de nós estava a receber as instruções de casa, das famílias e nenhuma de nós questionava ou duvidava delas, seriam seguramente as melhores e mais fiáveis. Tivemos de aprender e a arranjar um meio termo, passámos a seguir as regras Belgas para que nenhum dos nossos países fosse o “eleito”. Confesso, no entanto, que foi difícil por não entender as noticias que passam televisão local que, obviamente, estavam em belga/dutch. Primeiro, pedi às minhas colegas de casa para me ajudarem e elucidarem sobre o que estava a ser dito, atualmente já tenho o tradutor ativado e consigo seguir as notícias com mais facilidade e autonomia. Agora em casa só nos resta ir quebrando a rotina, aprender a fazer compras grandes para evitar idas desnecessárias para locais de contágio, sair de casa para passear - duas a duas, de acordo com as regras daqui -, ir limpando a casa e jogar jogos a quatro.

Atualmente, a prioridade é a nossa sanidade mental, tanto para nós como para as nossas família, amigos, professores e colegas de casa. Não mudaria nada do que fiz até agora, todavia gostava de ter conseguido e de ter podido aproveitar melhor e de forma mais natural esta nova experiência. Contudo, apurando bem todas as coisas, sei que estou a viver uma experiência que me está a fazer crescer e aprender a ser a todos os dias e vários níveis."

SANDRA BESSA

43 anos, Assistente operacional, testou positivo para a COVID-19

"Chamo-me Sandra, tenho 43 anos, casada, 2 filhos 14 e 18 anos. Sou assistente operacional num hospital privado de Lisboa. Sendo profissional da saúde e havendo um grande risco de ser infetada com uma nova doença de propagação muito fácil e rápida por volta do dia 7, 8 de março tomei algumas precauções.

Distanciei-me da minha família com a qual costumo conviver irmão, sobrinha, cunhada, e especialmente com tristeza da mãe, que vive sozinha!!!

Em casa deixei de estar em contacto facial muito próximo com os meus filhos, mas não com o meu marido mesmo com muito receio pois é hipertenso (controlado)

Nunca tive grandes receios pois não temos uma idade de risco e somos saudáveis.

Cuidados também com a entrada do cão em casa após as idas a rua, mas pouca precaução com os beijinhos ao mesmo tempo por toda a família (risco)

Dia 20 de março temos a informação que o meu local de trabalho vai fechar sem se saber em que condições. Tristeza e incerteza tomam conta de mim.

Dia 24 de março era o dia marcado pelo meu local de trabalho para que todos os profissionais fossem fazer o teste COVID-19 para um despiste de possíveis infetados e proteção de todos.

Nessa noite, de 23 para 24 senti-me péssima, com frio, com calor, com tremores, medo, dores de cabeça fortes...sei lá pensei que fosse apenas algum stress por ir fazer o teste ou talvez algum receio por estar infetada.

Não tendo estado diretamente com pacientes de estados positivos. Fui fazer o teste sem sendo considerada com sintomas.

Considero-me uma pessoa psicologicamente forte e sem tendência para fraquezas psicológicas...e normalmente saudáveis sem nunca ter faltado por motivo algum.

Nem sabia o que pensar se me sentia realmente mal ou se era por apenas, porque tinha ido fazer o teste e tinha receio do resultado. Fiquei em isolamento. Nesta e já na noite anterior tínhamos dormido em camas separadas para haver um maior afastamento pois tinha muito medo pelo meu marido e protegia-me sempre que saia do isolamento.

Dia 25 pela manhã confirmou-se o que se temia e que tinha a certeza pois não me sentia como habitualmente...fantástica??? Chorei, chorei apenas por saber que daí a 3 dias o G (meu filho) faria 18 anos e nada podia ser como sonhado??

Isolada colocava mascara por tudo onde passava, mas... o meu marido já tinha sintomas e por sua vez os meus filhos nos dias seguintes revelaram também alguns sintomas leves, idênticos aos nossos.

Algum medo que tudo piorasse, que os sintomas se alterassem. Pois com teste positivo e filhos sem necessidade de serem testados por COVID-19.

Segundo a saúde 24, todos em insulamento obrigatório e sem possibilidades de compras sem prioridade em compras online.

 Todos perguntam: Se precisares de alguma coisa diz... Na verdade, não querem ajudar.

 Todos com sintomas, dores de costas, cabeça, barriga... conseguimos fazer um bolo e cantar os parabéns ao meu filho.

Pior do que não haver uma festa era estarmos doentes, trouxe-nos muita tristeza que nos lembraremos para sempre.

Desapareciam uns sintomas e apareciam outros, o meu marido piorou... sempre muito bem acompanhados pela medica de 7, PSP, saúde publica.

Havia muitas dores de cabeça, emails para enviar, receber, baixas escola, diretores de turma...

Ia-se vivendo com as dores de uns e outros, segundo as notícias, por vezes entre o 7 e o 10 dia havia um agravamento do estado de saúde, e diariamente o medo e a ansiedade apoderavam-se, receios por outro lado em relação aos vencimentos, baixas a serem pagas a 55% para doentes e a 100% para quarentena... leis, enfim...

Dois, três dias e os meus filhos, no dia 8 todos fizemos o teste e o no dia seguinte boas e, más notícias, uma grande ansiedade até que o resultado aparece. O meu marido estava negativo, tinha alta médica (Considerado com alguma imunidade), o meu filho negativo, o meu outro filho inconclusivo e eu positivo.

Vida mais ou menos orientada, menos dores, menos medos dia 20 Sandra e o meu filho que tinha dado inconclusivo repetem o teste e mais uma noite de mais ansiedade à espera de resultados. O meu filho deu negativo (não detetável), eu continuei positivo(detetável).

Mais emails, PSP, baixas medicas, saúde publica, pois quem nunca testou positivo é considerado sem imunidade (há um link para preencher todos os dias um formulário até 14 dias do último membro da casa estar negativo).

Emails, emails, telefonemas... não há tempo para doenças.

Já sem sintomas e a repetir dia 30/04, mais uma noite de ansiedade e... novamente positivo(detetado). Novo teste para dia 11/05.

Fica o medo de exames futuros, fica o medo de possíveis sequelas..."

SANDRA QUARENTA

23 anos, Enfermeira

"Chamo-me Sara Quarenta, tenho 23 anos e sou Enfermeira. Trabalho atualmente no hospital de Cascais no serviço de medicina.

Tem sido complicado trabalhar com esta questão do COVID-19! Tenho muitos colegas infetados e tem sido difícil repor as horas deles. São 22 ao todo. Fazemos muitas horas! Além disso quando temos que ir diretamente para a zona COVID, os fatos de proteção individual que temos de usar são muito quentes, demoram a vestir e complicam imenso o trabalho!

Inicialmente voluntariei-me para integrar uma equipa de COVID onde prestaria cuidados diretos às pessoas. Isso acarretava ter de sair de casa e “mudar-me” para um hotel durante esse período sem poder vir a casa por tempo indeterminado. Seria hotel-hospital hospital-hotel. Entretanto os colegas foram ficando infetados e começamos a ser poucos para prestar cuidados aos doentes e acabei por não integrar essa equipa. Contudo como os doentes continuavam a chegar, prestei cuidados diretamente a doentes COVID e posso dizer que é complicado.

Somos destemidos dentro do hospital e à frente dos doentes, mas quando o turno termina e chega a hora do banho antes de ir para casa a sensação é de que nunca estamos limpos ou desinfetados o suficiente. Temos sempre medo de ser portadoras do vírus e levá-lo para as nossas famílias. Costumo dizer que quando estou a trabalhar esqueço-me que tenho uma vida lá fora, mas quando o turno acaba as minhas dúvidas começam e as vezes faço do meu quarto a minha fortaleza. Estou em casa, mas não estou com os meus. Não ia conseguir “desculpar-me” se os visse doentes por minha causa.

Relativamente ao estado de espírito, eu sempre fui bem disposta, vivo no mundo do impossível e acredito em unicórnios! Mas a verdade é que ultimamente o cansaço psicológico é maior do que o físico. Entro no hospital, mas pareço sempre cansada apesar de ter dormido! As vezes sinto-me deprimida sem motivo aparente, mas depois lembro-me porque estou ali, lembro-me que os doentes precisam de mim ali e precisam de mim com boa energia e passa. Quando estou sozinha as vezes vem a lágrima (acho que é a lágrima reprimida) mas depois penso na sorte que tenho em poder continuar a trabalhar, a ir para casa e estar sem vírus!

Já fiz o teste duas vezes e é super doloroso! Mas ao menos estou descansada!

As minhas rotinas tentei que permanecessem o mais normal possível! Adoro atividade física e por isso treino com regularidade em casa e com o apoio do meu PT por vídeo chamada! Estou com as minhas amigas da mesma maneira … acho que reaprendemos a estar juntos separados!

E pronto ... vamos vivendo assim na esperança de que um dia tudo normalize, tendo consciência de que nada será igual!"

SÓNIA GODINHO

Gestora Sénior de Projetos de Cooperação na área da Educação e Juventude na Delegação da União Europeia na Namíbia

 

"Na Namíbia, o lockdown começou a 27 de Março, e foi inicialmente decretado por 21 dias e depois estendido por mais 2 semanas. Vigoram medidas semelhantes às que foram implementadas em vários países europeus. Apenas os serviços essenciais se mantêm abertos e os supermercados têm restrições à entrada. Eu estou em teletrabalho tal como a maior parte das pessoas com profissões não manuais. Tenho todas as condições: internet, carro para me deslocar, e comida na despensa para duas ou três semanas.

No continente africano, o vírus chegou por via das pessoas inseridas em redes internacionais, que viajam bastante e que tinham regressado há pouco da Europa, e por ter havido pouco controlo nas entradas no aeroporto internacional. Em finais de Março, havia 10 casos confirmados. Ao dia atual (26 de Abril), dizem que são 16. Mas há uma certa incerteza em relação a estes números oficiais. O Governo criou uma estrutura oficial de combate ao Covid-19, mas a capacidade de organização e de resposta têm-se revelado fracas. Um aspeto preocupante é o facto de o Governo não ter nenhum epidemiologista a aconselhá-lo. Apesar de haver comunicação oficial diária, o nível de informação oferecido é insuficiente e por vezes contraditório e pouco claro, o que causa alguma ansiedade e incerteza.

Em Windhoek, a capital da Namíbia, o legado do apartheid é ainda evidente. A cidade divide-se em duas partes, a zona dita rica, com casas grandes, e onde vivem as pessoas com mais recursos económicos (algumas decidiram até fazer o confinamento nas suas fazendas fora da cidade). A outra parte é constituída pelos bairros de lata onde escasseiam serviços essenciais como o saneamento básico, eletricidade, acesso a água potável, e acesso à informação. Aí vivem pessoas que trabalham e recebem ao dia ou à tarefa. O confinamento está a empurrá-las para o desemprego e situações de fome.

Um dos grandes problemas é que as medidas de contenção e de diminuição da propagação do vírus não foram adaptadas à realidade africana, e não tiveram em conta o contexto social e económico local, pois não é possível que as pessoas consigam confinar-se em barracas de alumínio, sem casa de banho, frigorífico, eletricidade e água. As pessoas precisam de ir diariamente comprar coisas para comer, usar a casa de banho comunitária, abastecer-se de água e ter acesso a informação. Por estas razões, não se pode aplicar à letra a regra “ninguém sai de casa”, como em certos países europeus. As medidas foram também anunciadas sem grande informação ou explicação que fosse acessível e entendível por estas comunidades marginalizadas o que dificultou a sua aceitação e o seu cumprimento. 

Nos supermercados, colocaram linhas no chão, gel à entrada, e plásticos nas frutas. Inicialmente, tive receio que houvesse uma rutura na cadeia de abastecimento de certos bens alimentares, porque a Namíbia é completamente dependente da vizinha Africa do Sul, e se a situação piorasse lá, poderiam restringir as exportações para a Namíbia. Felizmente, esse receio não se veio a verificar e os supermercados têm sido abastecidos regulamente e ainda não houve falta de bens essenciais.

Houve estrangeiros residentes na Namíbia como eu que decidiram regressar aos seus países de origem no início da pandemia. Apesar de algumas hesitações iniciais, acabei por decidir ficar e hoje acho que foi uma boa decisão. Se tivesse ido para Portugal antes do confinamento, não saberia quando poderia voltar, porque começaram a cancelar os voos. Atualmente já não há voos comerciais e as fronteiras terrestres e aéreas estão fechadas. Por outro lado, sinto que sou útil aqui. No âmbito o meu trabalho, ajudei a reorientar as atividades e o financiamento dos meus projetos para combater o impacto da pandemia sobretudo nas áreas da educação e da infância nos bairros de lata onde as comunidades foram mais afetadas. Apesar de estar em teletrabalho, tem sido possível organizar reuniões presenciais que se realizam ao ar livre e respeitando os 2 metros de distância uns dos outros e usando material de proteção pessoal (máscaras e luvas). Era suposto ter ido de férias a Portugal na Páscoa. Essa viagem ficou cancelada. Tenho uma outra viagem planeada para Julho, mas neste momento não sei quando será possível ir a Portugal visitar a minha família. Está tudo muito incerto, e este aspeto causa bastante ansiedade e é talvez o mais difícil de gerir neste confinamento expatriado."

 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
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