As 3as Jornadas de Sociologia

Autores: Inês Pedro, Alexandre Pereira, Tiago Oliveira e Tânia Gomes, colaboradores do Departamento Socialis do NESISCTE.


No passado dia 19 de fevereiro realizou-se a terceira edição das Jornadas de Sociologia, um dia dedicado à Ciência, Tecnologia e Sociedade, reunindo representantes de diversas áreas para dar a conhecer ao público novas perspetivas sobre a sociedade e o seu modo de se relacionar e acompanhar a tecnologia. Estará o género relacionado com a tecnologia e suas aplicações? Como usar a tecnologia em função de uma educação moderna? Como proteger os nossos dados? De quem é a responsabilidade sobre as (des)informações que circulam por via tecnológica e chegam até nós? Foi em torno de quatro painéis sobre estes temas que toda a comunidade interessada foi convidada a participar e a assistir.




SESSÃO DE ABERTURA


A sessão de abertura contou com as palavras do presidente do NESISCTE, Eduardo Cabral, que falou sobre o processo de construção deste dia e sobre o interesse em desenvolver as temáticas em questão. Seguidamente, foi o Diretor do CIES-IUL, João Sebastião, que recordou outros trabalhos desenvolvidos na área das tecnologias e do investimento na ciência e na investigação, principalmente nas camadas mais jovens. Madalena Ramos, vice-presidente da APS, veio também saudar o trabalho realizado pelo Núcleo de Estudantes de retratar a importância da integração dos jovens sociólogos e da sua proatividade na divulgação do conhecimento e ciência. Em finalização do painel de abertura, Sónia Pintassilgo, representante da ESPP, retrata num testemunho mais pessoal a forma como conhece e acompanha o trabalho realizado pelos estudantes de Sociologia e os apoia, ao longo de várias iniciativas.




1º PAINEL - GÉNERO: TECNOLOGIA ESCREVE-SE NO FEMININO?


O primeiro painel – Género: Tecnologia escreve-se no feminino? – inicia-se com a participação de Eduarda Ferreira, onde apresenta resultados do projeto EU KIDS ONLINE – uma rede europeia com estudos sobre as práticas digitais dos jovens. Este estudo revela as formas de comportamento e como se dá o uso das tecnologias de acordo com o género. Demonstra como o smartphone é o aparelho de eleição em ambos os géneros, mas demonstra também que as práticas de género são continuadas pela tecnologia. De acordo com o projeto Gender@ICT – que se foca nas questões da literacia tecnológica de acordo com as questões de género – o uso das tecnologias por parte das raparigas não altera os estereótipos de género e estes continuam a influenciar de forma dicotómica as escolhas dos rapazes e das raparigas (tanto há menos raparigas nas áreas tecnológicas como menos rapazes nas ciências sociais). Já no ano pré-escolar é possível descobrir a presença de estereótipos de género através da análise de desenhos e realça-se a importância dos professores das TIC – que têm em si presentes os estereótipos de género e readequam as suas expectativas. A escola tem um importante papel para promover a igualdade de género e a diversidade dos papéis é uma das grandes conclusões de Eduarda Ferreira – aprofundada mais à frente no 2º painel por outros oradores.



Helena Geirinhas apresenta a sua Experiência no Técnico, que se foca em questões do Gender Balance e que debate a importância do equilíbrio na participação de homens e mulheres no contexto externo e interno das organizações. Assim, este projeto visa a promoção de condições atrativas do género feminino e de incentivo de chegada das mulheres aos lugares de topo.


Discutiu-se o facto de existir uma grande percentagem de mulheres em doutoramento que não se reflete nas profissões de topo – nas quais apenas 10% das pessoas são representantes do género feminino.

Em colaboração com o NAPE, passaram a existir Alumni Talks no Dia da Mulher, que consistem num pequeno almoço no qual as mulheres se reúnem e conversam sobre as suas carreiras. Entre outras ações, criou-se também o ciclo de conversas WISE – tendo igualmente como objetivo a promoção de igualdade de género – e novas medidas como a licença de parentalidade durante 2 semestres (em vez de apenas 1) para que as mulheres estejam dispensadas de dar aulas durante o 2º semestre, de modo a não atrasar as suas carreiras de investigação.

Para fechar este painel, antes do debate, Susana Cigano apresentou uma perspetiva pessoal de liderança de tecnologia. Contou-nos como foi crescer no Entroncamento e como desde nova tivera sido desencorajada a mexer nos computadores e como foi capaz de se integrar “apesar de não ter tido uma formação no [Instituto Superior] Técnico”. Trabalha atualmente numa empresa que procura ativamente a igualdade de género através de diversas medidas e promove a igualdade de género, em representação da Portuguese Women in Tech.

No debate foi possível discutir a necessidade de trabalhar a diversidade dos papéis de género e combater os estereótipos de género desde idades pré escolares e de abrir esta diversidade de papéis a outras formas de desigualdade e expressões de género, e não apenas o tradicional “homem e mulher” – tendo então a escola um papel central – e como, ao longo do percurso académico, a transição academia-mercado de trabalho não promove de igual maneira a igualdade de género trabalhada aquando dos estudos.


2º PAINEL - EDUCAÇÃO: FUTURO DAS ESCOLAS OU ESCOLAS DO FUTURO?


A educação e a sua relação com a tecnologia o tema central foi o tema retratado no segundo painel da 3ª edição das jornadas sociológicas. Os convidados Mónica Rodrigues, Pedro Abrantes e Nuno de Almeida Alves abordaram esta questão segundo as suas próprias perspetivas e cada uma delas com o seu contributo e aspetos a melhorar face a esta relação.



Mónica Rodrigues, a convidada que assumiu o início deste painel, procurou demonstrar um tipo de pedagogia diferente daquela a que estamos habituados: acredita numa pedagogia através do jogo. Com o seu estudo das neurociências, a docente mostra como é possível efetuar este tipo de pedagogia; a “gamification” visa a aprendizagem dos estudantes através do processo de espanto, empatia e competências pelo jogo de modo a trazer “joy” e “contentment” ao mundo educativo.


Pedro Abrantes, o convidado que teve a palavra após a explicitação acerca da “gamification”, apresentou brevemente o seu trabalho no que diz respeito às escolas, nomeadamente acerca das mudanças das escolas e que vê estas mudanças através de três momentos: a escola enquanto modelo empresarial; a escola enquanto comunidade; e a escola enquanto uma escola de volta aos tempos da academia, regressando ao passado e à sua forma de funcionamento mais conservadora.


O panorama face à relação entre as escolas e a tecnologia em Portugal é muito heterogéneo: em certas escolas o dinamismo dos professores e o apoio dado à tecnologização escolar é claro e no outro espetro, muitas escolas apresentam-se sem este tipo de dinâmica tecnológica.


Nuno de Almeida Alves, o último painelista, apresentou os diferentes processos que ocorreram (como o programa Minerva e o programa Nónio XXI) e que ocorrem face à entrada e permanência da tecnologia nas escolas. Considerando o panorama europeu, Portugal apresenta avanços, lentos, mas avanços no que diz respeito ao desenvolvimento da educação digital. Aquilo que o professor apresenta como o expectável acerca do processo remete para uma continuidade de uma estratégia horizontal das definições nacionais das competências digitais e fomenta a necessidade dos professores acompanharem este processo, sendo por isso necessária, na sua opinião, uma reaprendizagem tecnológica por parte do quadro dos docentes. O novo passo que se apresenta vigente é o 5G, cujo propósito é o de através de diversas políticas públicas desenvolver uma inovação digital nas escolas portuguesas.



3º PAINEL - PRIVACIDADE: LIMITES DA PROTEÇÃO DE DADOS


No 3º painel foi tratado e debatido o tema da privacidade e os limites da proteção de dados, tendo como oradores para apresentar as suas perspetivas sobre o tema em questão Clara Guerra, João Duarte e José Luís Garcia.



Tomou primeiro a palavra Clara Guerra, que realçou a importância do regime de proteção de dados como forma de consagração do direito à privacidade e de garantir todos os outros. No entanto, nota ainda alguns limites: vivendo numa economia global torna-se difícil impor limitações dentro da nossa jurisdição; este direito pode também chocar com o direito à segurança; o nosso próprio limite, no sentido em que temos de ter autonomia sobre os nossos próprios dados; e também o limite da inevitabilidade do progresso tecnológico e alerta para a reflexão em torno dos riscos que acarreta.


De seguida, teve a palavra João Duarte. Mostrou que aos olhos da sociedade, as pessoas têm uma experiência fantástica de utilização das TIC e as empresas uma utilização rentável das mesmas. Por outro lado, aos olhos do regime de proteção de dados existe um efeito negativo na experiência de utilização das TIC por parte das pessoas e das entidades, pois existe um retrocesso tecnológico na utilização e as entidades aumentam os seus custos. Por fim, aos olhos do Estado, há uma experiência de utilização positiva por parte das pessoas e, através destas tecnologias, segundo o pensamento do orador e baseando-se no parecer da comissão nacional de proteção de dados sobre o Orçamento de Estado de 2020, o próprio Estado consegue garantir o controlo e pagamento de impostos dos seus cidadãos.


Por fim, José Luís Garcia explana a sua perspetiva mais sociológica sobre o tema em questão. Segundo o orador, os problemas colocados em torno desta questão têm a ver com a possibilidade de controlo da sociedade e dos seus cidadãos, a relação de controlo entre o progresso tecnológico e a sociedade, no sentido em que se levantam questões sobre quem controla quem. Nas palavras do orador, o caminho ideal seria o do progresso tecnológico como modo de progresso social, e não o contrário. Realça ainda a questão dos algoritmos, onde através destes é possível tratar enormes bases de dados até de forma hierárquica e classificatória, numa lógica de controlo. Face a isto, aponta como resolução mais educação, maior racionalidade em relação progresso tecnológico, mais formas de controlo dos algoritmos e maior reorientação da tecnologia.


No debate que se seguiu discutiram-se as regras para a proteção de dados das crianças e algumas recomendações sobre as novidades do regulamento, onde existem algumas leis que visam a proteção a grupos vulneráveis, como as crianças ou doentes. É ainda reafirmado que há a necessidade de sabermos o destino dos nossos dados e de agirmos sobre isso e não se resolve estes problemas apenas com literacia e responsabilidade individual, mas com o papel forte do Estado.




4º PAINEL - INFORMAÇÃO: FAKE NEWS EVERYWHERE?


No último painel do dia “Informação: fake news everywhere?” pretendeu-se abordar e desenvolver as ideias-chave que remetem para a temática das fake news com os oradores convidados Ana Pinto Martinho e Tiago Lapa.



Assim sendo, a professora Ana Pinto Martinho deu início ao painel com o objetivo de abordar de forma mais abrangente o tema, começando por desenvolver as caracterizações do que são as fake news e a definição dos diversos tipos de informação que nos é disponibilizada. Em seguida, foram abordados os contextos em que a informação é divulgada dando enfâse ao papel que as redes sociais desempenham nos dias que correm devido à sua influência na forma como a informação passou a ser partilhada. É desenvolvida ainda pela oradora a importância dada pelas pessoas ao que é dado como falso na internet sendo de destacar Portugal como um dos países com maior preocupação com aquilo que aparece na internet. Isto demonstra assim a preocupação das pessoas, mas levanta a questão sobre se elas conseguem compreender verdadeiramente se é falso ou não.


Em seguida, foi dada voz ao professor Tiago Lapa que iniciou a sua abordagem com a ideia do nome do painel para expor as ideias conceptuais sobre informação e fake news. Levanta o problema da ideia de objetividade no meio jornalístico, pois não querendo negar o papel de extrema importância que os jornalistas e o jornalismo têm para a sociedade é, no entanto, necessário sublinhar que o ideal de objetividade pura não se consegue atingir visto que é muito difícil justificar a existência de apenas um ponto de vista ou que aquilo que é transmitido pelos media se trata de um espelho absolutamente fiel da realidade. É ainda levantada a questão sobre quem é que tem legitimidade para regular as fake news.


Terminada esta intervenção, prosseguiu-se uma fase de debate onde foram abordados temas desde sobre quem recai a responsabilidade dos atos de indivíduos dentro de uma plataforma, a aplicação da lei, o caso do Brasil quanto à produção de desinformação, bem como a individualização da responsabilidade. Neste sentido, o professor Tiago Lapa salientou a necessidade de as plataformas serem responsabilizadas, exemplificando com o caso recente do Facebook, tal como abordou as propostas legislativas sobre a desinformação expondo que pode tratar-se de uma legislação que dê jeito a um determinado governo para atacar a liberdade de expressão ou os direitos fundamentais de cidadania, demonstrando a necessidade de haver um cuidado com esses contextos. Na opinião da professora Ana Pinto é possível assistir por parte do jornalismo a uma mudança sobre a questão da objetividade, sendo que destaca como parte do que é ser jornalista a necessidade de ser o mais objetivo possível.


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